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FILHOS
Traumas prejudicam o aprendizado

por ANTÔNIO MARINHO
Da Agência Globo

Na consulta com o psicólogo, Luiz, de 8 anos, contou que se sentia como uma bolinha de pingue-pongue nas mãos dos seus pais, que estão separados. Reclamou que fica um fim de semana com a mãe e outro com o pai e que não há diálogo entre os três. No colégio, a professora diz que Luiz é desatento e brigão. Segundo psicólogos ingleses, autores do livro Transtornos emocionais na escola (Summus Editorial), o divórcio é apenas uma das situações que prejudicam o aprendizado.

No dia-a-dia no colégio, os alunos levam para sala seus problemas pessoais e familiares. Quase sempre essas queixas são transtornos emocionais, que se manifestam no comportamento e interferem no rendimento escolar. Divórcio, morte na família, depressão, abuso sexual, doenças e uso de drogas na família são outros fatores que afetam psicologicamente a criança.

O coordenador da edição brasileira do livro, o psicólogo Julio Groppa Aquino, professor da Faculdade de Educação da USP, diz que não há faixa etária mais sensível aos transtornos. O que muda é a forma como a criança administra imaginariamente seus efeitos, isto é, como pensa o que está acontecendo e as razões que atribui aos fenômenos que testemunha. As menores são mais vulneráveis, pois suas ferramentas internas são menos sofisticadas, comparadas às do adolescente.

COMPORTAMENTO - Os professores desempenham papel importante quanto à maneira de o aluno lidar construtivamente com as suas experiências. Eles não têm a responsabilidade de enfrentar todos os traumas do aluno. Mas, segundo Aquino, por meio da compreensão, podem diminuir seu sofrimento. "Tomar as crianças em primeiro lugar não significa apenas dedicar a vida ao trabalho com elas e para elas; significa pôr as necessidades dela na frente de considerações logísticas e operacionais, ser flexível e receptivo, proporcionar estruturas e limites que lhes permitam sentir-se seguras dentro das regras e das rotinas da vida escolar", diz Aquino.

O divórcio é uma das situações que mais afetam a criança na escola. Segundo as psicólogas inglesas Trisha McCaffrey e Heather Collins, uma em cada oito crianças no mundo inteiro enfrentará a separação dos pais até os 10 anos. Mesmo quando os pais se divorciam, os filhos precisam de dois a cinco anos para se adaptar à nova situação. Muitos fantasiam a reconciliação e passam por um processo semelhante ao do luto. Tudo isso diminui a auto-estima.

"Filhos de pais separados sofrem com a perda da auto-estima. Isso pode torná-los muito isolados e retraídos, duvidando de seu próprio valor e capacidade. Os professores precisam estar atentos às mudanças de comportamento, tentando ser bom ouvinte. "O divórcio pode levar uma criança à agressividade, à ansiedade ou a se tornar dependente. Os pais podem atenuar esses problemas, mantendo o diálogo e o bom ambiente na família", diz o psiquiatra Alfredo Castro Neto.

"Na opinião da psicanalista Sofia Sarue, o que prepara a criança para superar mais facilmente situações passíveis de acarretar dificuldades emocionais é a sua constituição psíquica. Esta é formada desde os primeiros anos de vida, em função dos cuidados físicos e psíquicos recebidos dos seus pais. "Os professores devem procurar estratégias que não cristalizem as dificuldades vividas pelas crianças, mas possam propiciar mudanças".

"Uma repentina deterioração no rendimento escolar ou o mau comportamento podem ser um primeiro sinal de que existem problemas em casa. Da mesma forma, a criança que está retraída e encontrando dificuldade para participar das atividades em aula ou brincar no recreio pode estar dando sinais de que está sofrendo.

"Trisha e Heather lembram que algumas vezes os pais subestimam o efeito que a perda de um amigo, de um animal de estimação ou mesmo de um membro da família pode ter numa criança. E os professores devem estar preparados para propor atividades que permitam trabalhar o problema. Um exemplo é incluir nas aulas histórias, conversas e programas de TV que abordam questões que levam a transtornos emocionais, sem focalizar diretamente o aluno com problemas.

MORTE - "Quando a criança parece querer conversar a respeito do que está acontecendo, provavelmente a abordagem mais eficiente é ser um ouvinte solidário. Esta atitude também é importante nos casos de crianças enlutadas devido a uma morte violenta na família ou a perda de um amigo.

"O psiquiatra Jean Harris Hendriks, do Serviço de Saúde Comunitário em South Bedforshire e um dos colaboradores do livro, diz que a criança que enfrenta este tipo de problema corre o risco de sofrer distúrbio de estresse pós-traumático. Um dos sintomas é a diminuição marcante do interesse em atividades importantes. Há outros sinais, como reação exagerada de sobressalto, distúrbios do sono e sentimento de culpa por ter sobrevivido quando outros não conseguiram.

Ele diz que o professor deve ficar atento quando lidar com crianças que sofreram uma perda violenta. Na escola, muitas não se concentram. Aquelas que são vítimas de violência causada por uma pessoa, conhecem bem o estigma de ter um crime na família e sabem que os adultos também ficaram muito perturbados com a situação. "Os dois lados relutam em conversar, pois as crianças não querem perturbar os adultos. Elas estarão traumatizadas, provavelmente encontrando dificuldade para demonstrar o sofrimento, deslocadas, estigmatizadas e sob os cuidados de adultos que, possivelmente, sofrem um trauma muito semelhante. Às vezes não têm parentes e estão sob o cuidado de pessoas estranhas e têm dificuldade para confiar", alerta Hendriks.

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Jornal do Commercio
Recife - 14.11.99
Domingo