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Inflação de quem? No varejo ou no consumo, a inflação deste ano pode ficar abaixo de 10%. No atacado ou na produção, ela deve ficar acima de 20%. Basta esse par de números para contestar o presidente Fernando Henrique Cardoso. De passagem por Havana, ele criticou a remarcação de preços pelo setor industrial e exortou a rejeição popular dos reajustes ligeirinhos. Algo do tipo "diga não à inflação". A indústria lava as mãos e jura, por todos os juros, que não está repassando custos comprovados para preços liberados. Não repassa porque não quer, porque não sabe e porque não pode. Nos terminais do consumo, a rebrota da inflação de custos não consegue acionar a ignição da inflação de demanda. Dois são os inibidores do repasse de custos para preços: 1) a resistência de consumidores cada vez mais informados, exigentes e seletivos; 2) a concorrência cada vez mais abrasiva entre as grandes cadeias do varejo. A cesta básica que o diga. Com mais de dois terços dela escoando pelos supermercados, segmento do comércio mais agitado pela competição, a cesta do Procon/Dieese, de captura diária, acumula nos cinco anos e meio do Plano Real um aumento de apenas 25%, contra 76% da inflação (Fipe) e 110% do salário mínimo. Ah! Não houve e não há recessão na cesta básica. Em resumo: se depender do mercado em liberdade, a inflação anual do Real vai continuar na jaula de um dígito. Houve até deflação em maio, ainda sob os escombros do choque cambial de janeiro e fevereiro. Mas se depender do próprio governo... CUSTOS FISCAIS - Quem vai responder no purgatório pelo IPA acima de 20%, este ano, é a caneta do Palácio do Planalto. Dela partiram, sem passar pelo Congresso, o ajuste trapalhão do câmbio na largada do ano e o tarifaço não explicado (e muito menos justificado) na metade da travessia. E o que dizer dos custos fiscais igualmente inflacionados pelo Governo Federal e endossados, no caso, pelo Congresso Nacional? O setor privado continua vestindo a camisa da estabilidade monetária, ainda que pagando pesado tributo à estagnação econômica. O setor público é que deu de desmunhecar, deixando de fazer a lição de casa. Só falta, agora, cometer a emenda pior que o soneto: levantar os juros na base para espancar a recarga inflacionária usinada pela própria caneta palaciana. A adoção de juros punitivos, panacéia do monetarismo anacrônico, carrega a mesma dose de sabedoria da prática de juros permissivos. Ou seja: nenhuma. Até porque, na ponta do consumo, ainda se cobram, em bancos e em lojas, juros de até 180% ao ano. Briga boa Pelo sim, pelo não, ramos industriais no vermelho ainda tentam repassar custos para as lojas. Os eletroeletrônicos estão forçando reajustes de até 15%. Claro, pegando carona no trenó de Papai Noel. Ainda não Nabil Sahyuon, presidente da Abrashop, entidade nacional dos lojistas de shoppings, diz que ainda não "pintou o clima" de Natal neste rabicho de primavera. Que, no Sudeste, ainda está mais para fim de inverno que para começo de verão. Novo perfil A Fundação do Instituto de Pesquisa (Fipe) da Universidade de São Paulo acaba de bisbilhotar os gastos de 2.350 famílias paulistas. Ela vai atualizar, a partir de janeiro, a ponderação do Índice de Preços ao Consumidor (IPC). Quem pesa? Tarifas públicas ganham peso maior no IPC. Crescem as fatias da habitação e da saúde. A Internet, a camisinha, o motel, a TV a cabo, o celular, o dízimo e o pedágio entram no índice. Perde participação o cigarro e cai fora o alfaiate. |
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