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ARTIGO

Personagens do Recife

por ROSTAND PARAÍSO

O Recife possuía, nas décadas de 40 e 60, figuras das mais interessantes que, de uma ou de outra forma, sobressaíam da multidão anônima e davam à nossa cidade uma característica toda especial.

Em nossas escolas de ensino superior tivemos tipos notáveis. Na Faculdade de Medicina e na Escola de Engenharia, havia histórias e mais histórias - algumas realmente acontecidas, outras fictícias, criadas pela fértil imaginação da estudantada - contadas a respeito dos professores Arsênio Tavares, Aluízio Bezerra Coutinho, Oscar Coutinho, João Holmes e Luís Freire. Na tradicional Escola de Direito, tornando-se parte do folclore local as histórias que circulavam em torno da figura, por exemplo, do professor Samuel Mac Dowell, possuidor não só de uma vasta cultura literária mas, também, de uma prodigiosa memória, homem capaz de recitar, em pleno Savoy - reduto, no Recife daqueles tempos, dos boêmios e dos literatos -, longos trechos de Shakespeare em inglês e estrofes inteiras do Lusíadas de Camões. Alguns desses homens, sérios, íntegros e profissionalmente bem-sucedidos, ficaram famosos, não - como deveria ser - pelos seus reais méritos, mas pelas suas decantadas peculiaridades e excentricidades.

Entre eles poderíamos incluir Agamenon Duarte Lima, membro dos mais dignos da nossa magistratura, e que, já à primeira vista, se destacava pela sua tão característica imagem, inconfundível e identificável mesmo a distância. Parece-me estar a vê-lo: chapéu preto, de feltro; roupa sempre branca, um tradicional linho diagonal; meias brancas; sapatos pretos, de sola e de bico finos; a lhe ornar a face, um bigodão imenso, que lembrava o de Miguel Vita, outro tipo igualmente famoso do Recife daqueles tempos, e que tinha com Agamenon uma grande semelhança física; um enorme charuto, que trazia, permanentemente, na boca; um guarda-chuva ou, às vezes, uma bengala que, segundo alguns, usava mais por charme do que realmente por necessidade; e, seu companheiro permanente, um parabélum (uma Lugger), enfiado no cós da calça e que ficava semi-oculta pelo paletó, que ele procurava manter fechado.

Uma de suas mais comentadas excentricidades era ir a pé, do Recife para Moreno, onde residia, não aceitava as inúmeras caronas que lhe eram oferecidas por quem passasse de carro pela estrada. Homem de coragem sobejamente comprovada, dele se contavam vários fatos, ocorridos, alguns, em pleno AI-5, período da repressão militar mais intensa no Recife. Embora discordasse publicamente de muitos dos atos de Arraes, manifestava, ao mesmo tempo, uma veemente repulsa à quebra da legalidade constitucional, isso sendo o suficiente para que fosse cadastrado como subversivo.

Certa vez, estando a presidir uma sessão do nosso Fórum, teve a sala invadida por alguns policiais, que tinham a missão de, por alguns irrelevante motivo, levá-lo preso. Todos ficaram assustados com o inusitado da situação, mas a sua reação foi a de alguém que não permitia que a sua autoridade de magistrado fosse, de alguma forma, ameaçada. Colocando sua arma sobre a mesa, replicou, em voz alta, que estava realizando uma audiência, não vendo motivos para, por imposição de ninguém, interrompê-la, e que dali só sairia aos pedaços, recebendo à bala quem se atrevesse a tocá-lo. E o fato é que os policiais se retiraram, à procura de novas instruções sobre como proceder diante do indômito desembargador, que, com aquela demonstração de altivez, tornou-se, mais ainda, merecedor do respeito do pernambucano. Terminada aquela sessão, ele teria sido aconselhado, para evitar novos vexames, a sair do Palácio da Justiça pelas portas do fundo. Agamenon resistiu, porém, a esses conselhos, e, como sempre fizera, deixou o fórum pela porta principal, de cabeça erguida, sem, como se temia, ser molestado por ninguém.

Paulo Cavalcanti, em suas memórias políticas, nos conta que, "num processo em que se acusava um militante do PC de haver ido à União Soviética - única prova de sua alta periculosidade -, Agamenon absolveu o réu desse monstruoso delito, sob a alegação de que, firmada a jurisprudência, se deveria processar, naquela hora, o Ministro da Fazenda do marechal Castelo Branco, Roberto Campos, por se encontrar em Moscou". E que, "na ação penal promovida contra outros subversivos, esse bravo magistrado, paraibano de nascimento, sempre se houve com desassombro, mantendo incólume sua independência de juiz".

Homem correto e íntegro, Agamenon Duarte Lima foi, sem dúvida, uma das figuras marcantes do Recife dos anos 60, merecendo, por conta dos seus muitos atributos, o respeito e a admiração de todo pernambuco.

*Rostand Paraíso é médico cardiologista


Jornal do Commercio
Recife - 19.12.99
Domingo

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