INGRATIDÃO
100 anos de
Vicente, o esquecidopor
MÁRIO HÉLIO
Ele realizou mais de 800 obras
plásticas. Hoje, um quadro seu da melhor fase pode estar
cotado em cerca de 300 mil dólares, segundo o marchand
Carlos Ranulpho, o último com quem trabalhou. Versátil,
publicou mais de 15 livros de poesia, dois deles
premiados em Paris (sua obra poética é quase toda em
francês). Foi responsável pela divulgação dos
primeiros textos de João Cabral de Melo Neto e diversos
outros escritores. Organizou a primeira grande coletiva
de arte moderna no Recife, no Teatro Santa Isabel, em
1930.
Ele é o pintor e poeta Vicente do Rego
Monteiro, que completaria, hoje, um século. Duas
exposições modestas referenciam a sua obra, no Recife.
Uma, em papel, no Arquivo Público Estadual. Outra, em
tela, no Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães
(Mamam). Na primeira, pode ser vista a reprodução de
muitos dos seus trabalhos como artista gráfico, e
originais da sua produção jornalística e literária.
Na segunda, 11 quadros que pertencem ao acervo do
próprio Mamam, como O Atirador de Arco e Uma Bela na
Noite.
Pela dimensão internacional da obra de
Rego Monteiro, deve-se reconhecer que a comemoração dos
100 anos do seu nascimento está sendo acanhada.
"Mas, de qualquer maneira, é uma lembrança".
Não deixa de ser irônico que o seu centenário,
coincidente com o de um artista menor, como Murilo La
Greca, seja ainda mais relegado, no Recife. Mas,
"nada de lamentos", e, "vamos
adiante", como diria Rimbaud.
A exposição no Arquivo Público pode
ser o início da descoberta de um Monteiro menos
conhecido, sobretudo no lugar onde nasceu. Para isso, há
dois projetos em andamento. Um, por iniciativa do artista
plástico Paulo Bruscky e do fotógrafo Edmond Dansot, e
outro do marchand Ranulpho. Ambos pretendem transformar a
obra e a vida de Monteiro em livro. O primeiro, já
aprovado pelo Sistema de Incentivo à Cultura do Governo
do Estado, pretende divulgar toda a sua obra poética (em
edição bilíngüe), acompanhada de CD com gravação de
poemas e uma peça radiofônica, além de dezenas de
fotografias inéditas de Edmond Dansot. O segundo, será
um levantamento completo dos seus últimos anos em
Pernambuco.
Além da edição do livro, o projeto
de Bruscky e Dansot prevê a realização de uma
retrospectiva no Museu do Estado de Pernambuco (com
catálogo impresso), mostras itinerantes de sua arte e a
produção de 1 mil quebra-cabeças e 5 mil livretos
didáticos, para divulgar a obra do artista e poeta nas
escolas públicas. Bruscky também programa, juntamente
com a editora Litoral a reedição dos caligramas do
poema Lisboa, 1956, de Edson Regis, na letra de Rego
Monteiro, à maneira de Apollinaire.
JÓIAS -"O reencontro com
Vicente do Rego Monteiro poeta é-o também com o editor
que, numa prensa manual, publicou algumas das jóias da
poesia francesa e brasileira. Revalorizar isso é,
também, por fim, encontrar uma nova leitura, de um dos
artistas que, nascendo na efervescência do modernismo,
foi pós-moderno. Como se o pós-modernismo fosse
anterior ao pré-modernismo. Como se o futuro nascesse
antes do passado, numa cronologia só possível no mundo
da arte e do mito. Trata-se, obviamente, de um
enfrentamento histórico. De uma aproximação de
gerações como a de Joaquim Cardozo (da Revista do
Norte) com a de João Cabral de Melo Neto. E desta com a
que ainda floresce agora.
A obra de Monteiro parece dar razão ao
cosmopolitismo regionalista de Gilberto Freyre, que,
segundo Walter Zanini, foi o crítico que acompanhou toda
a sua trajetória. Na verdade, o autor de Casa-Grande
& Senzala foi um dos primeiros a reconhecer a obra de
Rego Monteiro. Ambos grandes nomes da cultura de
Pernambuco, mantiveram os primeiros contatos no auge de
suas energias. Dois brasileiros em Paris sequiosos de
influências para atiçar ainda mais a sua originalidade.
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