ESFORÇO
Um talento
múltiplo a ser redescobertoNa quarta-feira, dia 15, o Arquivo Público
Estadual realizou, com as Edições Bagaço, o
lançamento de Cartomancie, de Vicente do Rego Monteiro.
O livro contém pequenos poemas visuais editados em
cartas de baralho. Trata-se da radicalização de uma
idéia que já está germinada nas ilustrações do
próprio artista, na edição princeps.
Por esses e outros trabalhos, como o
Poema 100% nacional (composto de números e apenas uma
frase, satirizando o hábito brasileiro do jogo do
bicho), o poeta-pintor antecipa de algum modo o
concretismo. Fácil entender isso, considerando-se as
fontes primais que influenciaram Monteiro: poetas
franceses como Apollinaire e Mallarmé (este um ícone
dos concretistas, com o seu Lance de Dados).
Monteiro é caso especial, ainda por
ser revisitado pelos concretistas (que já ressuscitaram
autores como Sousândrade) e pelos historiadores e
críticos literários no Brasil. Falta talvez mesmo
descobri-lo. Não consta que os livros sempre em pequenas
tiragens de Vicente do Rego Monteiro tenham circulado
além do seu círculo de poetas em Paris e uns poucos em
Pernambucos. Até João Cabral de Melo Neto, que com ele
conviveu no final da década de 30 e início da 40 no
Recife, desconhecia a maior parte dos seus livros (quase
todos publicados na França).
Faz ele parte do seleto grupo de
autores como Blake que exercitaram plenamente a pintura e
a poesia. No seu caso, as duas atividades se encontram,
mas, há momentos em que a pintura mobiliza as suas
melhores forças (na década de 20), e outros tomados
pela poesia e artes gráficas (os anos 30, 40 e 50).
Se é possível entender a sua pintura
divorciada da sua poesia, não o é igualmente desta em
relação às artes gráficas. O seu trabalho de
ilustrador e diagramador será decisivo para o modo como
a poesia se estrutura. Há momentos em que a imagem e as
palavras se casam de modo evidente como L'Hydravion, e,
antes nos poemas em prosa de Quelques Visages de Paris.
Mas o estudo dessa poesia e sua correlação com a
visualidade e espacialidade ainda está por ser feito.
Há notícia de pesquisa que está sendo desenvolvida
pela Universidade de São Paulo, que analisa a obra de 12
simultaneamente pintores e escritores, da América
Latina.
Entre os diversos interesses que
moveram Vicente do Rego Monteiro (a escultura, a dança,
o figurino, o automobilismo, a indústria de aguardente,
o serviço público, o magistério) a poesia ocupa um
lugar central. O seu trabalho como autor, tradutor e
editor de revistas como Renovação, da promoção de
salões, murais e congressos de poesia, além de
transmissões radiofônicas e gravações de discos fazem
dele mais do que um pioneiro: um grande animador da
literatura de línguas portuguesa e francesa e um dos
mais fecundos e generosos artistas que o Brasil já fez
nascer e esquecer.
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