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HOMENAGEM
Manguebeat é toda súdita do Rei do Baião

por SCHNEIDER CARPEGGIANI

Luiz Gonzaga foi um grande `pop star' brasileiro, talvez o primeiro deles. E ele deve ser saudado por essa expressão escrita em idioma estrangeiro mesmo, pois ela melhor difundiu para o mundo a definição de artistas que vendem toneladas de discos e conseguem reunir multidões. No caso do `velho Gonzagão', os shows poderiam tanto ser em feiras populares, marquises ou em caminhões. Mais pop star impossível. Por isso, no ano em que é lembrado os dez anos de sua morte, nada mais apropriado que seja lançado Baião de Viramundo, um disco-tributo feito por artistas que, na sua maioria, ainda engatinhavam quando, em 1968, o produtor Carlos Imperial alardeou na imprensa que os Beatles tinham gravado Asa Branca - na verdade, Blackbird, de Lennon e McCartney. Uma grande prova de que sua música resiste ao tempo e a modismos.

Baião de Viramundo é uma parceria da gravadora paulista Y Brazil? e do selo pernambucano Candeeiro Records, criado pelos produtores Marcelo Soares (da Muzak Produções) e Pupilo (baterista da Nação Zumbi). O lançamento recifense do CD acontece na próxima terça-feira, às 21h, no Forte das Cinco Pontas, ao som dos DJs Renato L e Dolores, que também participa do CD. Nas lojas, a coletânea deve chegar na véspera de Natal.

O tributo a Luiz Gonzaga é o segundo CD desse gênero feito por artistas da nova cena musical pernambucana que é lançado em menos de quinze dias - o primeiro foi Rei, em homenagem a Reginaldo Rossi. A grande diferença entre os dois é que as histórias passionais que permeiam as músicas do rei do brega não têm muitas semelhanças com o que ficou estabelecido como `imaginário mangue'. As letras desses artistas retratam, em sua maioria, os problemas do cotidiano do pernambucano, suas frustrações e expressões. É o homem tentando não ser engolida pela cidade. Tudo a ver então com as verdadeiras crônicas sociais que são as letras de Luiz Gonzaga. Nesse caso, o homem tentando não ser engolido pela seca. Por essa semelhança, Baião de Viramundo soa bem mais autêntico e visceral do que a maioria do repertório de Rei.

TÃO BOM QUANTO - Comadre Florzinha, Mestre Ambrósio e Cascabulho são alguns dos artistas presentes em Baião de Viramundo que nas suas carreiras se inspiraram no trabalho de Luiz Gonzaga. E nesse CD eles mostram que as lições do mestre foram aprendidas com perfeição. O melhor exemplo disso é Cacimba Nova, um dos maiores e mais angustiados clássicos de Gonzagão, que casou perfeitamente com a voz rasgante de Siba, do Mestre Ambrósio.

Os `estranhos no ninho' DJ Dolores, Otto, Stela Campos, Nação Zumbi e Sheik Tosado também conseguiram bons resultados nas suas releituras. Stela Campos ganha em disparado o prêmio de arranjo mais `fino'. A cantora levou Sabiá por um passeio pelo trip hop, mas sem esquecer o acordeom e a zabumba, essa última comandada por Pupilo. Para humilhar ainda mais os mortais, ela recita um trecho da letra da música em francês. Otto, acompanhado de pandeiro, triângulo e dos inevitáveis teclados de Apollo9, esbanja carisma na sua interpretação de Orélia. Dá até para esquecer as limitações da sua voz, que nunca foi nenhuma `brastemp'.

O DJ Dolores transformou A Dança da Moda em um dub maravilhoso, com as participações de Comadre Florzinha e de Spyder nos vocais. É a faixa mais divertida e estranha do CD. A Nação Zumbi colocou a força dos seus tambores em O Fole Roncou. Sheik Tosado viu a delicada Assum Preto como uma possível candidada a hino de rodas de pogo. E não é, por incrível que pareça, que eles estavam certos.

Na sua versão de Dezessete e Setecentos, Mundo Livre S/A provou que compreendeu como poucos o espírito do CD. Utilizando samplers da gravação original, Fred 04 interpreta a faixa como se estivesse bastante chateado com um troco errado em uma feirinha do interior. Mais Luiz Gonzaga impossível.

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Jornal do Commercio
Recife - 19.12.99
Domingo