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CURTO E GROSSO
José Teles

O espírito de Natal

"O espírito natalino é um malassombro que surge no mês de dezembro para apavorar pais de família pobres e desempregados". A frase é antiga e minha. No entanto, descobri que o espírito natalino é mais do que isto: é uma espécie de possessão coletiva. Só assim podemos entender a loucura que toma conta da grande maioria da população, nestes infernalmente quentes dias decembrinos. Natal me deixa com os nervos à flor da pele, e olha que já sou normalmente irritadiço. Preparei, inclusive, minha caixinha de sapatos, coberta por papel de presente e com uma fenda no centro. Não, caríssima meia centena de leitores, não vou sair por aí pedindo as festas a seu ninguém não, se bem que até que tô precisado.

A caixinha é defesa contra os que me cheguem com caixinhas parecidas. Elas, como num passe de mágica, surgem em todos os cantos, mal começam a entoar o jingôbéu e os sinos a bimbalharem. Sinos bimbalham, pois não?

Se o Lá de Cima fosse mais condescendente com nós que habitamos os tristes e tórridos trópicos, bem que, com sua comprovada onipotência, podia obrar um milagrezinho jóia, amainando a canícula da época natalina. Não digo nem que mandasse cair uma nevezinha, mas se regulasse a temperatura pros 15°, acho que ninguém iria reclamar. Se bem que aí até fosse pior. Porque se com os 50° atuais, as ruas já estão apinhadas de gente, comprando o que não precisa com o dinheiro que não tem, imaginem com um clima que não obrigue o indivíduo a parar de cinco em cinco minutos pra um chopinho (ou com água mineral, há gosto pra um tudo neste mundo).

Os papais-noéis de lojas, estes dariam o maior ponto. Não deve ser moleza, aquela roupa; gorro, barba, botina, andar debaixo do maior solzão, agüentado tudo quanto é guri mala (desculpem a redundância. No guri já está implícita condição de mala). Sempre que vejo um destes papais-noéis só me vem à lembrança, o falecido ex-juiz e comentarista esportivo da (salvo engano, que eu comumente salvo engano-me) Rádio Globo, Mário Vianna.

Lá pelos anos 60, Mário Vianna, um homenzarrão com justificada fama de brigão, a convite de uma instituição beneficente deu uma de Papai Noel. Então tava ele lá, na rua, afagando e distraindo pirralho, quando passa um cara e grita: "Palhaço"! O irascível papai noel não perdeu tempo. Largou da gurizada, correu atrás do sujeito, aplicou-lhe o maior cacete, e voltou ao seu posto, ovacionado pela petizada que o aplaudia, e gritava: "Dá-lhe, Papai Noel, dá-lhe Papai Noel".

"A senhora deve tá aí, no seu sofá, comentando como sou ranzinza, por não estar de coração enlevado face a data máxima da cristandade. Saiba que não sou o único. Esta semana passei pela Rua do Imperador, que de tanta miséria e miseráveis, transformou Dom Pedro Segundo em D.Pedro Derradeiro. Ali, numa rodinha daquele pessoal, que tem como coberta a Via Láctea, e pisa nos astros distraído (poesia na vida real é mais embaixo), uma mulher reclamava: "O que não dou ponto neste negócio de Natal é que os homi mete tanta luz nas rua que nós, os lascado, não pode nem dormir por causa da claridade". Pois é, senhoras autoridades competentes, incorporem o espírito natalino: já que não se importam em tirar a cabroeira da rua, ao menos apaguem as luzes na hora em que eles forem cair nos braços de morfeu.

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Jornal do Commercio
Recife - 19.12.99
Domingo