MEMÓRIA II
Pequenas mostras
lembram do artista de muitas facespor MÁRIO HÉLIO
Um dos males secretos das guerras -
reais ou simbólicas - que produziu o século vinte foi
exilar ou matar alguns dos melhores artistas. Para um
Picasso vitorioso e olímpico existem milhares de
pintores quase pedido esmolas "à porta da
Alegria", seja em que continente ela fique. Vicente
do Rego Monteiro é um exemplo direto disto no Brasil. O
artista, que faria cem anos no próximo dia 19, está
quase completamente ignorado no Recife, lugar onde
nasceu, no bairro da Boa Vista. O calendário deste ano,
editado pela Companhia Editora de Pernambuco, do governo
do Estado, abre e fecha com Monteiro, e é a primeira
menção ao seu centenário. Mas não parece que os
responsáveis pela cultura em Pernambuco tenham por
hábito ler calendários ou agendar o previsível.
Dá quase pra contar nos dedos os nomes
das pessoas que valorizam a arte de Monteiro em
Pernambuco. Nos últimos anos, ele tem sido lembrado no
Recife graças sobretudo ao empenho do artista plástico
Paulo Bruscky e das exposições do marchand Ranulpho.
Não fosse a pequena mostra inaugurada, amanhã, no Museu
de Arte Moderna Aloisio Magalhães, e outra, no próximo
dia 14, no Arquivo Público Estadual, a data passaria em
branco. Quem sabe, no próximo ano, as instituições que
não festejaram a vida, celebrem a morte, pois, em junho,
serão completados vinte anos do falecimento de Monteiro,
sepultado no cemitério de Santo Amaro, no Recife.
No Mamam, até 16 de janeiro, podem ser
vistas além das obras do acervo de Monteiro, quadros de
coleções particulares e reproduções de alguns dos
seus trabalhos como artista gráfico do acervo de
Bruscky, que também participa da mostra do Arquivo
Público. Esta tentará revelar um Monteiro menos
conhecido: o homem de letras e artista gráfico. Mais
nada foi programado. O que seria vergonhoso num estado em
que as intituições culturais tivessem um mínimo de
pudor passa em Pernambuco por coisa natural. Entre as
publicações, somente uma saiu, neste ano - e em Alagoas
-, o livro "Enfim, Primitivos", de Francisco
Oiticica Filho.
É verdade que há uma galeria na
Fundação Joaquim Nabuco com o nome de Vicente do Rego
Monteiro, mas preferiu ignorar, até agora, o seu
centenário. Nem o Centro de Artes da Universidade
Federal de Pernambuco (ele foi professor da Escola de
Belas Artes) ocupou-se do assunto. É verdade também que
o Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães guarda no seu
acervo 11 dos seus quadros, mas pouca gente sabe como
foram adquiridos: trocados por passagens pra Paris. Isto
mesmo. Rego Monteiro precisava viajar e
"comprava" as passagens da generosidade da
prefeitura do Recife com alguns dos seus melhores óleos.
Igualmente verdade que o Museu de Arte Contemporânea e o
Museu do Estado têm obras suas até premiadas, mas nada
está agendado para o dia do centenário.
O Arquivo Público também promove,
durante a inauguração da sua mostra, palestras e o
lançamento do livro "Cartomancie", publicado
originalmente pelo próprio autor, em 1952. Está em
preparo nas oficinas das Edições Bagaço, e sairá em
tiragem limitada a 300 exemplares numerados.
Quem estudar a biografia de Monteiro e
outros artistas, logo perceberá que a história óbvia
da arte em Pernambuco é feita mais de penúria que de
riqueza. De riqueza dos artistas e penúria dos que têm
poder. E, claro, das arrobas de intrigas, ciúmes,
invejas e outras virtudes menos elevadas ainda.
Um capítulo a ser contado seria, por
exemplo, das relações ou inexistência delas, entre
Vicente do Rego Monteiro e Cícero Dias. Ambos pintores
brasileiros e residentes em Paris, quase não há
menção de um ao outro. Mas, a julgar por um trecho de
carta de Gilberto Freyre ao próprio Cícero Dias, datada
de 25 de outubro de 1938, deve ter havido alguma
animosidade. Ou, pelo menos, ciumeira. Depois de contar
que vai dando um curso na Universidade de Columbia, o
sociólogo diz:
"Não fiz vergonha à Pátria
Amada, Idolatrada, onde estou com uma campanha safada
contra mim por sua causa - pois no Rio, o animador da
campanha é Portinari que não perdoa eu colocar você
onde coloco, e em Pernambuco, o De Rego Monteiro - pela
mesmíssima razão."
É preciso referir o contexto da carta.
Em pleno Estado Novo, Gilberto Freyre e Vicente do Rego
Monteiro, que tinham sido muito camaradas na Europa,
estavam afastados por motivos políticos. O segundo
apoiava o novo regime, e era colaborador. O primeiro
tinha casa saqueada e a família sob ameaça. Cartas
censuradas, críticas até caluniosas nos jornais.
Note-se também que era nesse período, até de pouca
produção pictórica, que ele tentava espaços para
expandir a divulgação da sua arte. Numa carta de Mário
Andrade a Manuel Bandeira, de maio de 1930, há uma
referência explícita:
"Ontem o Paulo Prado me telefonou,
dizendo que o Rego Monteiro se tinha queixado pra ele de
eu não ter respondido a uma carta que Rego me mandou,
perguntando sobre as possibilidades financeiras da
exposição dele em S. Paulo. Ora absolutamente não
recebi jamais em vida minha nenhuma carta de Rego
Monteiro. Recebi sim, e apenas o catálogo da exposição
no Recife, me mandado pelo Ascenso e nada mais. Está
claro que respondia. E respondia aliás, não garantindo
nada porque às vezes um merda vem para cá e vende tudo
e às vezes outro merda vem e não vende nada ou quase. E
o mesmo sucede com bons autores e boas exposições, às
vezes vendem muito e às vezes nada. Em todo caso o nada
bem raro. Mas dizia pra ele a verdade, que parece
regionalismo porém em mim não é: S. Paulo é o único
centro tentável no Brasil, está claro. Aí no Rio,
sensibilidade moderna mesmo, isto é capaz de se
apaixonar pra comprar, si tiver uns três, terá? A
mentalidade moderna do Rio, moderna falo como
intelectualidade, se resume a umas dez pessoas e essas
vivem na dipindura(...). Rego Monteiro tinha primeiro que
vir pra S. Paulo, mas essa gente inda vive sonhando com a
terra natal, parece incrível! Ora imagine você o Recife
do sr. Gilberto Freyre, comprando um desenhinho de
Picasso por três contos (de catálogo)!!! Depois, si S.
Paulo não rendesse nada, então tentasse a capital da
República e só depois, si de todo não quisesse pôr de
banda o coração, então fosse pra terra natal, fazer
abluções sagradas no Capibaribe, não acha mesmo?"
São Paulo sempre valorizou Vicente do
Rego Monteiro. Ele participou da famosa Semana de Arte
Moderna, com dez quadros, da melhor fase. Era época das
andanças por Paris, onde ele viveu desde a
adolescência. Alguns anos depois da Semana, Oswald de
Andrade o convidou a integrar o movimento antropófago.
Monteiro desprezou o convite. Afinal, considerava-se um
precursor, com técnicas e temáticas inspiradas na arte
dos índios da Amazônia. As melhores exposições
recentes aconteceram também em São Paulo, inclusive uma
grande retrospectiva sob a curadoria do crítico de arte
Walter Zanini. Pernambuco, que, há muito, continua
devendo uma mostra realmente significativa, preferiu
perder a oportunidade de fazer isto no centenário.
Talvez seja a arte de Monteiro
sintética ou sincrética de algumas das mais sólidas
tendências das vanguardas. Pintura sofisticada,
racional, mas que não desprezava as motivações
primitivas e populares. O livro "Vicente do Rego
Monteiro - Pintor e Poeta", de Walter Zanini,
publicado, há dois anos, pela Empresa das Artes Editora,
e lançado na Ranulpho Galeria, é o mais completo estudo
já produzido sobre Monteiro. Obra indispensável a quem
quiser conhecer, em todos os detalhes, sobretudo o seu
trabalho como artista plástico.
O Governo do Estado de Pernambuco acaba
de aprovar, através do Sistema de Incentivo à Cultura a
publicação de um livro com a sua obra poética completa
(edição bilíngüe em francês e português). Também
integra o volume uma série de fotos inéditas feitas por
Edmond Dansot, de Monteiro e suas peças como artista
gráfico. Espera-se que, a partir daí, inicie-se a
comemoração do centenário, ainda que tardia.
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