PATRIMÔNIO
O Recife e Olinda
festejam a destruiçãopor
SEVERINO VICENTE DA SILVA*
Assistimos, a cada dia, a
manifestações de amor ao Brasil, nesta constante
comemoração dos quinhentos anos da chegada dos
portugueses. O sentimento afetuoso é de tal monta que,
não satisfeitos por termos sido "descobertos"
por Cabral, celebra-se um outro descobrimento, o de
Pinzón. Surge uma "nova e grande questão"
nacional: Foi no Porto Seguro ou no Cabo de Santo
Agostinho que o Brasil começou?
Entretanto, há uma outra polêmica:
Não terá o mundo nascido no Recife? Ademais, se em
Porto Seguro, seguramente, rezou-se a primeira missa, com
certeza foi na atual rua do Bom Jesus que se ergueu a
primeira sinagoga das Américas e, como esquecer que em
Igarassu (ou Igaraçu?), sob a proteção dos santos
médicos Cosme e Damião, protetores das crianças,
graças ao sincretismo com as tradições africanas que
aqui chegaram forçadamente?
Há, pois, muito a comemorar, a
lembrar, a guardar e a destruir. Veja-se a Cidade
Patrimônio Cultural da Humanidade, Olinda, assim chamada
e reconhecida por ser testemunha da riqueza e da miséria
de uma (ou mais) época. Ela está ao abandono. Os que se
esforçaram para a Unesco assim a reconhecesse, hoje
esforçam-se por destruir as características
arquitetônicas que lhe deram tal título.
A confusão é tal que, ainda hoje são
cobradas taxas e estipêndios, parece, teriam sido
superados com a Independência ocorrida cento e noventa e
sete anos atrás. Entretanto a mentalidade colonial é
tal que, exigem-se pagamentos de impostos do período
colonial. Estamos no século XVII? Parece que sim.
Relatos daquela época falam que os holandeses teriam
destruído igrejas e casas em Olinda para a construção
da cidade portuária do Recife.
Por outro lado, a mudança
administrativa ocorrida com a expulsão dos holandeses,
deu ensejo para destruição de alguns prédios do Recife
para a reconstrução de Olinda. A cada mudança
administrativa, destróem-se e constróem-se coisas. Das
lutas entre lusos e flamengos foi crescendo o Recife. O
seu subsolo conta essa história. A arqueologia
histórica mostra isso a cada dia.
Recentemente, em Roma, em uma
escavação que tinha como objetivo construir um novo
estacionamento para abrigar os carros dos turistas que
pretendem ver a chegada do ano 2000 (alguns que prestaram
muita atenção nas aulas de história na quinta série
insistem em afirmar que será o início do novo milênio.
É que eles não compreenderam que não existe o ano zero
e todos começamos a contar do número um e não do zero.
Suas notas foram zero em história, zero em cronologia,
zero em matemática, mas estão ganhando milhões com a
sua e a ignorância de outros milhões). Nas escavações
romanas foram encontrados vestígios de antigas moradias
romanas. As escavações pararam, foram chamados
historiadores, arqueólogos e sábios de outros ramos do
conhecimento, para avaliarem o que havia sido encontrado.
Ainda discute-se o destino das escavações e do
estacionamento. A atual Roma está sobre antigas. Assim,
o atual Recife está sobre outros Recifes.
O Recife nasceu e cresceu sobre
mangues, assim demonstram os documentos e as recentes
escavações que estão realizadas pela equipe do
professor Marcos Albuquerque, na rua do Bom Jesus. Ali
ele encontrou braços dos rios abaixo das construções
atuais. Encontrou alicerces de outras residências. Só
este fato deveria fazer com que as autoridades
responsáveis pela preservação da cultura e do
patrimônio da Cidade do Recife, acorressem em auxiliar o
professor e sua equipe nos trabalhos de escavação que
podem nos ajudar a conhecer melhor nosso passado.
Entretanto, o que fazem os
irresponsáveis pela preservação do nosso patrimônio?
Colocaram tapumes na praça do Marco Zero, arrancaram
árvores, colocaram máquinas para escavar o local que,
com toda a certeza é possuidor de muitas notícias sobre
o nosso passado. Quantos historiadores foram convidados
para observar o início das escavações? Quantos
especialistas em arqueologia históricas foram convidados
para avaliar o que está sendo encontrado? Tudo indica
que a resposta é zero. Nesse episódio, dito que para
comemorar a passagem do milênio, segundo os
especialistas em mídia e fazedores de dinheiro com a
ignorância alheia, discutiu-se muita vaidade, amor
próprio e nenhum amor à cidade. Buscou-se preservar
nobilidades possíveis, morais questionáveis, mas jamais
pensou-se em conhecer melhor nosso passado, entender como
se forjou nossa cidade. Dizem que é para jactar-se,
etnocentrismo tolo e vulgar, de que o mundo teria
começado no Recife. Dizem que é por amor ao Recife, mas
foi por amor a certas vaidades e, possivelmente a algumas
contas bancárias.
Os tapumes na praça Rio Branco, quando
forem tirados, não mostrarão amor ao Recife, mostrarão
o quão pouco se gosta do seu passado, o escarnecimento
pela sua história, a estética da destruição. A
derrubada dos tapumes haverá de mostrar a
irresponsabilidade na condução da nossa cidade. De
qualquer forma, é uma boa maneira de comemorar 500 anos
de descobrimentos e destruição.
* Severino Vicente da Silva é
professor do Departamento de História da Universidade
Federal de Pernambuco
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