LIVROS
Andando na corda bamba:
vida de editorpor JOSÉ
MARIO PEREIRA*
Há poucas atividades no Brasil tão
vilipendiadas quanto a de editor. Em geral, somos
reputados como seres desprovidos de cultura, que vivem da
exploração e comercialização do talento alheio.
Ninguém lembra que a falência arrasta mais editores que
escritores.
Não se leva em conta a enorme
quantidade de autores que só se tornaram conhecidos
depois de devidamente copidescados e rearrumados no
dia-a-dia das editoras. E, quando o livro sai, a
concisão, a leveza e a elegância do estilo são do
autor, é claro. Mas já vi escritores famosos
reescritos, por exemplo, por Pedro Paulo de Sena
Madureira, hoje na Siciliano. Não se comenta, até
porque ficaria deselegante, essa participação
subterrânea do editor no processo final de um livro.
Falo neste caso - e a distinção aqui é necessária -
do editor no sentido de editor, em inglês, e não do
dono de editora, que tanto pode ser um lutador de caratê
que herdou o negócio da família quanto um executivo
interessado em publicar best-sellers de qualidade zero
apenas para ganhar dinheiro.
Penso no editor como alguém que,
dentro dos limites e potencialidades de sua atividade,
contribui para que a cultura do país se fortaleça rumo
ao futuro. Dois exemplos de imediato me ocorrem: Erasmo
de Roterdam e Denis Diderot. O primeiro empenhou-se, em
seu tempo, para que a grande cultura greco-latina se
tornasse conhecida e reavaliada; o outro é o inquieto
autor do romance moderno por excelência que é
"Jacques le fataliste", e também o maior
responsável pelo sucesso da "Enciclopédia"
francesa. A missão primeira do editor deveria ser a de
empenhar-se para que o humanismo ganhasse consistência -
sobretudo entre nós, brasileiros, que vivemos em uma
região periférica do mundo capitalista. Admiro meu
saudoso amigo Énio Silveira, da Civilização
Brasileira, e hoje um Jacó Guinsburg, da Perspectiva,
por contribuírem neste processo.
No Congresso encontramos defensores de
tudo: do mico-leão dourado, das baleias, da arara azul,
das tartarugas marinhas. Desconheço, porém, quem tenha
sido eleito lutando pelo livro, advogando a necessidade
de o brasileiro ter acesso fácil à leitura, defendendo
o direito do cidadão à autêntica cultura que só o
livro pode dar. Na verdade, somos uma categoria que, no
conjunto, é mais importante do que qualquer Ministério
da Cultura, mas não nos damos conta do fato. Neste final
de século, e às vésperas dos 500 anos do Brasil,
constato que não formamos um grupo uno, coeso - e isso
é lastimável. Temos um Sindicato, mas na hora
necessária somos pouco ouvidos. De outro lado, não
possui o governo uma política séria de aquisição de
livros, que garantiria a publicação de textos
relevantes e esquecidos.
E quase nunca o Sindicato toma atitude
em defesa das pequenas editoras. Há dois ou três anos,
o governo exigiu 89% de desconto na aquisição de livros
para distribuição em escolas e bibliotecas públicas.
Dono de grande editora, o então presidente do Sindicato
agiu de forma ambígua. Nos jornais declarou que não se
deveria negociar em bloco, pois isso configuraria
"formação de cartel". Logo a seguir, produziu
e vendeu um livro existente apenas no catálogo de uma
pequena editora. Ou seja: com a desculpa de que o título
era de domínio público, desconsiderou a ética
profissional, que o impediria de imprimir um livro que me
tomou quase um ano de trabalho. Vejam o absurdo:
resgatado do esquecimento, fora do mercado desde 1931, O
Brasil Nação, de Manoel Bomfim, foi escaneado e vendido
para o governo pela editora dele; retirou-se apenas os
prefácios por mim encomendados a Wilson Martins e a
Ronaldo Conde Aguiar, biógrafo de M. Bomfim e hoje uma
das maiores autoridades em sua obra, empobrecendo deste
modo a publicação.
Ninguém pensou no trabalho que este
livro consumiu - nem o presidente do Sindicato, nem o
governo, cúmplice na usurpação. Detalhe: a edição
original, em dois volumes, foi transformado por mim em
um. A outra editora, com gráfica própria, aceitou o
extorsivo desconto exigido pelo governo e fez o livro
também em um só volume, copiando até mesmo a solução
gráfica que adotei. É de se perguntar: por que
continuar editando obras de qualidade, de real interesse
para o entendimento do Brasil, se o governo, no momento
em que deveria reconhecer este trabalho, estimulando o
editor a prosseguir em missão tão pouco lucrativa,
compactua com a esperteza? Não há solidariedade da
categoria quando o único objetivo é o lucro, o que
torna urgente a criação de uma forma de copyright para
trabalhos desse nível.
Há muito para se editar no Brasil.
Estamos entrando em novo século e ainda não fizemos a
grande edição brasileira dos gregos, de Aristóteles e
Platão, nem nada que se compare ao catálogo da Loeb
inglesa, da Les Belles Lettres francesa, da F. Meiner
alemã ou da Gredos espanhola. Falta-nos ousadia.
Precisamos inventar, arriscar, e não copiar o vizinho -
mesmo quando a palavra de ordem é concorrência.
"Fazer um livro não significa mérito nenhum se
este livro não melhora as pessoas", escreveu o
poeta inglês S. T. Coleridge, em uma frase que
deveríamos adotar como lema.
Que não entendam o que digo como
romantismo ou defesa quixotesca da qualidade contra a
vendabilidade. Nossa atitude como editores deve ser a de
ajudar o país a ler mais, a ler melhor. Só assim nos
justificaremos perante as futuras gerações, adiando o
esquecimento que corrói tudo que é humano.
* José Mario Pereira é editor da
Topbooks.
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