POLÍTICA II
Nome de palácio cumpre
dever cívico de justiçaEspírito
requintado pelo nascimento e pela cultura, Nabuco não se
envergonhava de usar uma pulseira de ouro feminina, que
realçava, nos seus discursos, a elegância de orador
helênico. Em carta dirigida a Joaquim Nabuco, seu
secretário eleitoral, Antônio Carlos da Silva,
informa-lhe que a intriga e a inveja dos velhos e dos
novos inimigos não deixavam de varar-lhe os horizontes,
como dardos impiedosos ("A Vida de Joaquim
Nabuco", por sua filha Carolina, 1º volume, p.
296).
Os impropérios que lançavam contra
ele tinham diversos matizes; porém, do ponto de vista
pessoal, talvez fosse a "calúnia estúpida" o
mais terrível de todos. Pelo menos era o que mais o
atormentava. Como Machado de Assis, Nabuco recusava as
alcunhas diminutivas, certamente porque essas lhe
lembravam a acusação infundada dos seus inimigos.
Machado de Assis não queria ser chamado de Machadinho.
Joaquim Nabuco não admitia a alcunha de Quinquim. E,
apesar de ser poeta, não gostaria de ser reconhecido
como tal. Quando Machado, em crítica a um poema de
autoria de Nabuco, resolveu considerá-lo um poeta de
futuro, ele não aceitou o elogio, dizendo que não
queria ser um poeta, mas sim um homem de ação.
Revelando embora a sua virilidade e a
sua repulsa aos diminutivos, Nabuco talvez tivesse a
trabalhá-lo o fenômeno da "superdiferenciação do
instinto", qu o impedia de confraternizar com seus
contemporâneos nos bordéis, ou de lutar, como Castro
Alves, pela posse sexual de uma atriz. Seus amores sempre
foram amores de superfície, preferindo o platônico ao
concreto, e as estrangeiras finas e sentimentais às
potranquinhas de Silveira Martins. ("Amores de
Joaquim Nabuco", de Gilberto Freyre, inserto no
Jornal do Commercio, Recife, 1949).
O gênio da abolição levava a sério
determinados anseios da juventude, tanto assim que, se
referindo a Castro Alves, que era o seu antípoda nesse
setor, afirmou que nunca oo viu dar atenção "às
realidades da vida e às ambições da mocidade".
Nada obstante, João Mangabeira, em seu livro "Rui,
o Estadista da República", chegou a dizer que nem
Rui, nem Patrocínio, nem Nabuco foram figuras primaciais
da Abolição, entendendo que todos eles foram superados
pelos vôos do poeta de "Navio Negreiro".
Nabuco não sofria de arrebatamentos amorosos, como
diversos homens públicos de sua época. O spleen e a
fleugma britânicos muitas vezes o assaltavam, menos nos
arroubos oratórios, nos quais poderia chegar, no
crescendo das hipérboles, à imitação de Disraeli,
dizendo inclusive: "Não tenho partido e não me
preocupo com partidos..."
Politicamente, ainda que Nabuco
escrevesse em francês, que era o idioma de seus amores,
pensava em inglês. Não foi somente a sua formação
moral que contribuiu para esse fato; foi, também, a
profunda admiração que nunca desapareceu, pela
monarquia constitucional e parlamentar britânica. A
abolição da escravatura nem sempre ocasionou a queda de
governos. Os Estados Unidos talvez possam servir de
exemplo a apontar. No Brasil, porém, o Barão de
Cotegipe tinha razão. A sua frase profética baseava-se
nas circunstâncias que Nabuco expusera no Parlamento, em
discurso memorável.
A gênese das atitudes
lítero-políticas de Joaquim Nabuco talvez não se
encontre numa vaidade mal disfarçada, mas sim na cena
angustiosa do despejo de Massangana: "Ainda hoje
vejo chegar, quase no dia seguinte à morte (de sua
madrinha), os carros de boi do novo proprietário... Era
minha deposição... O que mais me pesava era ter que me
separar dos que tinham protegido minha infância, dos que
me serviram com a dedicação que tinham por minha
madrinha, e sobretudo entre os escravos, que literalmente
sonhavam pertencer-me depois dela." ("Minha
Formação", pp. 164-65).
Filho intelectual do genitor
biológico, mas sobretudo sentimental de D. Ana Rosa,
Nabuco tinha razões de sobra para amar profundamente a
sua madrinha. A escravidão no Brasil em quase nada
diferia da escravidão nos Estados Unidos, do cativeiro
em Roma ou da servidão na Rússia. Em certos engenhos
predominava o patriarcalismo; noutros, a violência e a
estupidez.
Entretanto, quanta diferença entre a
madrinha-santa de Nabuco e avó de Turgueniev. Enquanto
esta, inválida como aquela, agride com as muletas e
sufoca o escravo que a servia, a madrinha de Nabuco
escolhe os remédios que mais facilmente possam curar as
moléstias de seus bondosos escravos, que, no fundo, a
amavam e eram por ela correspondidos. Não propriamente
como político, mas sobretudo como advogado, Nabuco
sentia no coração, sempre acesa, a chama do seu amor a
Massangana, assim como a perene recordação do despejo,
envolta em nuvens nostálgicas.
Em Renan, manifestou-se a saudade de
sua bondosa genitora; em Nabuco, a imorredoura saudade de
D. Ana Rosa. Em Renan, foi o contato com novos mundos,
que o decepcionaram, pela brusca mudança de costumes,
tão diversos eram o Tréguier e os do Seminário Menor
do Padre Dupanloup. Em Nabuco, foi a perda do paraíso de
Massangana, do qual se tornaria escravo para sempre:
"O traço todo da vida é para muitos um desenho de
criança esquecido pelo homem, mas ao qual ele terá
sempr que se cingir sem o saber"...
Homens de letras na política e, não
raro, político nas letras, Joaquim Nabuco, nas suas
cartas a Machado de Assis, gostava de fazer-lhe algumas
insinuações de vez em quando. Ora lembrava-lhe que a
Academia Brasileira, para adquirir maior influência e
popularizar a literatura, não devia adstringir-se às
letras propriamente ditas - devem ser admitidos no
cenáculo alguns elementos de todos os partidos, sugere o
político; ora insinuava a eleição do seu candidato
para a Academia, para quem pedia o voto valioso mas
sempre esquivo do presidente.
Culminância da inteligência e da
cultura nacional, como o foram Castro Alves, Rui Barbosa,
Rio Branco e Machado de Assis, há um traço de afinidade
que liga Joaquim Nabuco a cada um deles: a Castro Alves,
a campanha abolicionista; a Rui Barbosa, a eloqüência
ática e flamejante; a Rio Branco, a personalidade
irresistível que os fazia lutar nos bastidores pela
preponderância de seus métodos diplomáticos; a Machado
de Assis, o heroísmo da "marcha inversa" como
a denominou Graça Aranha, saindo um da aristocracia em
busca da plebe, e outro da plebe para a aristocracia
espiritual, ambos impulsionados pelas labaredas de um
idealismo fecundo e patriótico.
Foram os influxos desse idealismo que
se apoderaram da pena de James Bryce, o insigne
embaixador e jurista britânico, ao escrever esta frase
que é uma síntese, após a morte de nosso júpiter
apolíneo, em 1910: "Nabuco era um dos mais
eminentes estadistas e diplomatas sul-americanos".
Todas as homenagens que o nosso Estado e o Brasil
prestarem a Nabuco são, portanto, merecidas e devidas.
Quando a Assembléia Legislativa do Estado, por
iniciativa do autor destas linhas, decidiu denominar de
Palácio Joaquim Nabuco o edifício em que funciona, não
fez mais do que cumprir um dever cívico e praticar um
ato de justiça.
* Tabosa de Almeida, ex-deputado
federal, é advogado e professor aposentado.
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