LG_jc.gif (3670 bytes)

A CIDA CRÔNICA II
Adolescência do pai

Chega o instante em que a filha pedirá ao pai para buscá-la madrugada na boite. Quanto mais tarde ele a apanhar, melhor para ela. Quanto mais tarde ela o pedir, melhor para ele. O pai sabe, porque já foi filho, a fatalidade desse dia, até um outro dia, tão inevitável quanto aquele, em que ela não mais o pedirá, pois dele não mais necessitará de autorizações e buscas. Os filhos crescem, quem não sabe, talvez o pai até o instante do desprendimento.

Ser pai na adolescência dos seus filhos nem sempre é ofício fácil. Inúmeras são as mudanças que se produzem no jovem, sejam elas psíquicas, corporais, além das novas cobranças sociais. Crescer e adolescer implica no desaparecimento do corpo infantil e da própria infância, e com ela também se vai a imagem dos pais das épocas infantis. Quanto menores e imaturos são os filhos, mais enormes e poderosos parecem ser os seus pais. E tanto se fala dos adolescentes e de suas crises, contradições e conflitos, que muitas vezes esquecemos do outro lado da adolescência: os pais e suas renúncias e envelhecimentos.

A filha cresce, o pai diminui. Deve ele, processualmente, abandonar a imagem que de si a filha criou, bem como seu posto e função. O papel de um pai alterna em relação aos diferentes períodos e idades do seu filho. O pai de uma criança pequena jamais será o mesmo pai de um adulto, muito embora seja ele essencialmente o mesmo. O pai é um pai, o que muda são as relações e as situações, e com elas e nelas suas funções. Agora, o pai com a filha iniciante de vidas noturnas não é mais aquele aspirado ídolo de outrora, que foi ficando, ficando no passado de ambos, a cada passo e conquista da maturidade da filha. O super-homem da menina transforma-se assim em simplesmente apenas o homem que ele é, com alguns sucessos e outros tantos fracassos. A fragilidade da filha faz-se à mostra quase como se fosse uma descoberta.

A paternidade não se inicia quando nasce um filho, nem quando a mãe deste ainda o carrega no ventre. A paternidade tem seu início no desejo de se ter um filho. Por sua vez o desejo de se ter um filho passa pelo desejo de maternizar uma mulher. Desse modo o impulso pela paternidade tem sua gênese em um desejo de maternidade, coincidente com a genitalização da sexualidade, pois ser pai não é uma vivência exclusiva e dual (pai-filho), mas sim uma coexistência triangular (pai-mãe-filho). Aliás, não existiria pai sem mãe, nem uma mãe sem filho.

Acontece que muitas vezes no sentir o desejo de se ter um filho se confunde o sentimento de posse. Parafraseando Gibran, o pai ao ter um filho não tem o filho para si, porém para o mundo, muito embora na infância do seu filho possa o pai esquecer um pouco ou um tanto isso. Crescido o filho, adolescente este, tal realidade parece invadi-lo como se fosse tão de repente. Um sentimento de nostalgia e perda predomina, ainda que a perda nunca seja definitiva, pois o pai não perde a sua condição de pai pela adultificação dos filhos. O que se perde, o que mais se perde, é o inútil sentimento de posse e domínio quando o filho se volta e se solta no mundo em busca de outros objetos a estender seus desejos e afetos. A filha de que falamos chegará ao insante em que priorizará outros abraços, aos invés dos braços do pai.

Se a adolescência é uma fase difícil, difícil será para ambos: filhos e pais. Um dia o pai desejou ter uma filha, maternizando uma mulher. Anos depois poderá haver a filha de desejar a sua própria maternidade, gerando comistouma outra e distinta paternidade. E assim caminha a vida em seu curso e com ela a humanidade. O desenvolvimento melhor se dará em um ambiente onde não se prenda a autonomia necessária, nem se exija a urgência da liberdade precoce. O jovem quer a independência com um misto de expectativa e medo. A independência não é um foguete que se lança ao contar do zero; é feito um fruto que antes foi parte da semente plantada em solo fértil de onde a partir de suas raízes arboreceu-se até a maturidade frutificada do acolhimento.

Crescer é um processo lento e gradual, às vezes também sofrível. Porém, se nesse processo se diminuem os pais idealizados da infância, cresce-se com os filhos o que podemos realmente chamar de paternidade. Ser pai também é ter prazer de levar e buscar a filha na boite - falta combinar com ela o horário. (A Camila)

* Joaquim Cesário de Mello é escritor e psicólogo.

-----------------------------------------------------------------------


Jornal do Commercio
Recife - 0
6.12.99
Segunda-feira