COMPORTAMENTO
Tinho, o capitão
internauta"Poucos
jogadores teriam coragem de assumir uma atitude
semelhante à de Wellington Feitosa Queiroz, o Tinho,
capitão do Santa Cruz. Jogador do Vasco, o maior
`papão' de títulos na segunda metade da década de 90,
ele simplesmente mandou tudo às favas. E não foi para
nenhum Barcelona, Milan ou Ajax da vida. O destino foi o
Al Ali, na Arábia Saudita, terra de costumes diferentes
e dos cobiçados `petrodólares'. Na terra em que as
mulheres não mostram o rosto, Tinho fez seu pé-de-meia.
Mas tudo na vida tem seu preço. Para ele custou a
ausência dos noticiários, das rodas de conversas, de
companheiros de profissão e treinadores. Uma pessoa
ainda lembrava dele: o técnico Arturzinho, que o levou
para o Santa Cruz. Isso depois de quase abandonar o
futebol por causa de uma contusão no joelho, em 97.
"Naquela época várias pessoas viraram as costas e
eu vi quem eram meus verdadeiros amigos", lembra. Os
poucos que ele cita são Cássio, Pimentel e Carlos
Germano, todos da época em que corria pelos gramados de
São Januário. Essas e outras estórias, como o vício
em sites de bate-papo na internet, Tinho relatou ao
repórter Wladmir Paulino.
JC - Quando você chegou ao
Recife, o Santa Cruz estava num momento difícil, sem
vencer fora. Você acreditava que poderia chegar onde
chegou?
TINHO - Com
sinceridade, no início eu temia pelo sucesso da equipe.
Quando cheguei, o time não estava com uma boa
regularidade, principalmente nos jogos fora de casa. Eu
via o tempo passar e a classificação mais distante do
Santa Cruz. Só a partir do momento em que o Nereu entrou
e colocou a prata da casa e pudemos ver a transformação
que houve em relação à vontade e à garra, eu passei a
acreditar mais, principalmente após aquele jogo contra o
América de Natal. Sabia que seria muito difícil porque
só faltavam três jogos mas acreditava, pelo que a
equipe estava apresentando, pela vontade, pela luta. E,
graças a Deus foi o que aconteceu. Nas últimas partidas
empatamos com o São Caetano, vencemos o Sampaio Corrêa
e ainda fomos favorecidos pelo resultado do Remo contra o
CRB. E a partir do momento em que nos classificamos,
ganhando do Sampaio Corrêa fora, e com os jogadores da
casa querendo vencer a qualquer preço, passei a
acreditar mais.
JC - Você foi trazido por
Arturzinho. Comentava-se que ele tinha formado uma
`panelinha', só querendo escalar os jogadores que ele
trouxe. É verdade?
TINHO - Não vejo como
`panelinha'. É uma opção do treinador. Se ele optou
por aqueles jogadores era porque gostava deles e o fato
de escalá-los não quer dizer que seja `panelinha'. Até
porque o treinador é pago para escalar, seja de forma
certa ou errada. Quando Nereu assumiu, ele me tirou do
time e eu não reclamei. Continuei treinando, não
reivindiquei nada e continuei fazendo minha parte porque
o profissional tem todo o direito de errar. Lógico, não
concordei com a minha saída, mas em momento algum
reivindiquei isso. Continuei trabalhando para que depois
voltasse ao a ser titular.
JC - O que você acha que
prejudicou mais o time na época de Arturzinho?
TINHO - Eu,
sinceramente, não sei o que aconteceu. Havia uma
irregularidade muito grande em relação aos jogos.
Jogávamos bem em casa, vencíamos. Mas fora não
conseguíamos ter o mesmo sucesso. O time jogava até
bem, mas só vinham derrotas. Com essas derrotas, a
classificação ficava mais distante.
JC - E o que provocava essa
irregularidade?
TINHO - Não sei,
talvez a troca de treinadores. Alguns jogadores estavam
insatisfeitos com o trabalho de Arturzinho. Eu posso
falar que é um grande profissional, que eu respeito
muito. Conheço o caráter dele, mas, infelizmente, tem
dessas coisas no futebol. Quando as coisas não dão
certo sempre sobram para o treinador. Ele não teve
sucesso e foi substituído.
JC - Você presenciou algum
atrito entre Arturzinho e algum jogador ou percebeu corpo
mole de alguém?
TINHO - O único
atrito que eu percebi em relação a jogador e treinador
foi o caso do Luís Carlos, que tirou o colete e jogou no
chão. Em relação ao grupo, não. Todos treinavam muito
bem, ele era um treinador que exigia bastante.
JC - Houve um comentário de
uma briga no vestiário, após o jogo contra o XV de
Piracicaba. Como foi isso?
TINHO - Faltavam cinco
jogos para terminar a fase classificatória e
dependíamos de um resultado positivo para continuarmos
com chance de classificação. Marco Aurélio foi expulso
de uma forma muito infantil e o Santa perdeu. Aquilo
chateou alguns jogadores. Ficou claro e evidente.
Passamos para ele o descontentamento do grupo. Nereu
ficou chateado porque ele pediu para ficar em São Paulo,
dando a entender que forçou a expulsão.
JC - Antes de você jogar aqui
já tinha ouvido falar do Santa Cruz?
TINHO - Já tive
contato com muitos jogadores que passaram por aqui e as
informações que eu tinha sobre o Santa Cruz eram muito
boas, um time que tinha uma estrutura muito boa, uma
torcida maravilhosa, muito grande e isso eu pude
comprovar a partir do momento em que cheguei aqui. Assim
que cheguei pude ver que tudo que ouvi era verdade. Tem
uma torcida que, nos jogos em casa, comparece e, com
certeza, pelo que eu pude ver nesses quatro meses em que
estou aqui no Recife, que com a grandeza e a torcida que
o Santa Cruz tem, é um clube que deveria estar na
Primeira Divisão há muito tempo.
JC - Quando você chegou aqui
havia o problema dos salários que estavam atrasados.
Alguém lhe avisou que a situação era desse jeito?
TINHO - Atraso de
salário no futebol de hoje é tão normal,
principalmente no futebol brasileiro. Se você for pegar
os clubes que estão em dia, conta nos dedos. Pelas
dificuldades que têm, é muito complicado para os clubes
colocarem os salários em dia. Eu sabia disso em
relação ao Santa Cruz, mas a partir do momento que
você aceita fazer um contrato com um clube, independe do
salário estar em dia ou não. Se você é profissional,
tem que fazer a sua parte. Eu, quando vim para cá, foi
com essa meta: procurar ser o mais profissional
possível, dar o melhor de mim para que eu pudesse fazer
algo pelo clube, como fiz em outros por onde que passei.
E procurei dar o máximo de mim para conseguirmos esse
objetivo
JC - Você tinha propostas de
outros clubes antes de vir para cá?
TINHO - Sim. Tinha
propostas de quatro clube da Série B, mas, com toda
sinceridade, pesou o fato de Arturzinho estar aqui. Desde
a época do Vasco, ele já tinha me indicado para vários
clubes onde trabalhou e sempre houve algum obstáculo em
minha ida para os clubes em que ele estava. Aproveitei
que tinha pego meu passe no Vasco e pintou o Santa Cruz
assim que ele chegou aqui. Aceitei. Isso eu não nego
para ninguém.
JC - Quando ele saiu você
temeu ser esquecido?
TINHO - De forma
alguma. Essas coisas acontecem no futebol naturalmente e
o profissional tem que estar apto a trabalhar com vários
treinadores. Em momento algum eu temi por isso, até
porque me conheço e sei o profissional que sou. Assim
que Nereu assumiu, me tirou da equipe e continuei
treinando. Voltei três jogos depois, como titular e
capitão da equipe, e consegui, junto com meus
companheiros, colocar o Santa Cruz de volta na Primeira
Divisão.
JC - Agora o futuro. Como está
sua renovação de contrato com o Santa Cruz?
TINHO - Meu contrato
termina no dia 31 de dezembro, fiz um contrato de quatro
meses. Graças a Deus, todo esse tempo em que fiquei aqui
aconteceram coisas ótimas. Adorei a cidade do Recife,
minha filha gostou bastante. Tive uma identificação
muito boa com o clube, com a torcida, que é maravilhosa.
A manifestação que ela teve na nossa chegada ao Recife
eu nunca vi igual em outra torcida e isso mexe com o
jogador. Eu me emocionei muito quando vi aquela torcida
gritando nosso nome pelo que nós fizemos. Agora a gente
espera uma certa valorização. São onze anos em que o
Santa está na Série B e nós podemos contar quantos
jogadores passaram por aqui e não conseguiram fazer isso
que nós fizemos. Então acho que é mais do que justo
numa reformulação de contrato, nós sermos valorizados.
E nas duas conversas que eu tive com Joel Zanata (gerente
de futebol) estou sentindo que não há interesse deles
em relação a uma valorização. Eles não estão sendo
corretos conosco, comigo, particularmente, que estou
conversando. Esperava uma valorização muito maior da
parte deles. Mas vamos esperar, tenho interesse em ficar,
quero ficar, adorei a cidade, a torcida é maravilhosa,
mas vamos continuar conversando para chegar a um acordo.
JC - Você já recebeu proposta
de outro time?
TINHO - Já. Alguns
clubes me procuraram por intermédio de algumas pessoas,
empresários, procuradores... Mas durante essas conversas
eu procurei ficar de fora porque ainda estava disputando
o quadrangular da Segunda Divisão e não queria me
envolver. Agora que acabou a competição, a gente vai
esperar as coisas acontecerem naturalmente. Meu objetivo
é ficar no Santa Cruz e já falei isso para o presidente
e o gerente de futebol. Eu quero ficar, mas com eles
reconhecendo o meu valor, o que eu fiz pelo clube. Se o
clube não me valorizar, eu, com certeza, não ficarei.
JC - Essas propostas são de
clubes da Primeira Divisão?
TINHO - Todos da
Primeira Divisão, graças a Deus. Acho que o trabalho
que fiz aqui no Santa Cruz não despertou o interesse só
em mim. Vários jogadores têm recebido propostas de
outros clubes. Nós profissionais dependemos do futebol,
temos uma vida curta nos gramados e temos que analisar o
momento. O momento é propício para fazermos um bom
contrato? É, pelo que nós fizemos aqui. Então é bom
analisar a melhor proposta para tomar uma decisão
acertada.
JC - No Vasco, você participou
de um período de muitos títulos. Por que resolveu sair
de lá?
TINHO - Passei nove
anos no Vasco da Gama. A partir do momento em que eu
operei o joelho, em 97, percebi que muitas pessoas temiam
em relação ao meu futebol. Muitas pessoas passaram a
não acreditar que eu voltasse a ser o mesmo Tinho de
antes. Assim que me recuperei, após uma série de
dificuldades, coloquei na cabeça que sairia na primeira
oportunidade que aparecesse. Muitas pessoas me deram as
costas, amigos, jogadores. Nos meados de 98 surgiu uma
oportunidade para que eu fosse para a Arábia Saudita.
Foi, sem dúvida, o melhor contrato que eu fiz como
profissional. Fiquei por lá oito meses e, assim que
consegui uma situação financeira boa, decidi pegar meu
passe. Abri mão do Fundo de Garantia que eu tinha no
clube, em relação aos nove anos de contrato e peguei o
passe.
JC - Você guarda mágoa de
alguém do Vasco?
TINHO - Mágoa, com
certeza eu guardo, mas prefiro nem citar nomes. Até
porque essas pessoas que duvidaram de mim, hoje podem
estar até arrependidas. Fui superbem na Arábia Saudita,
só que, profissionalmente, lá não é bom. Todos viram
o que eu fiz aqui e isso é bom para mostrar que, às
vezes, quando nós, seres humanos, achamos que é o fim
de tudo, Deus nos mostra que estamos no início de uma
nova caminhada. A cada contato que eu tinha com essas
pessoas que demonstravam não estar mais confiantes no
meu futebol, aquilo me dava mais força para buscar mais
a recuperação para mostrar que eles estavam enganados.
JC - Você voltaria para o
Vasco?
TINHO - Com certeza,
voltaria com o maior prazer. Tenho uma identificação
muito grande com o Vasco e tenho um carinho muito grande
por todos.
JC - O ganho financeiro
compensa a perda do lado pessoal no futebol?
TINHO - O tempo que
você tem para sua família perde bastante. Você deixa
de estar ao lado dela muito tempo porque são viagens,
concentrações, jogos. Mas é a nossa profissão.
Graças a Deus, minha família entende tudo. Quantos
jovens queriam estar como eu, hoje, e não têm essa
oportunidade? Até porque o futebol é uma peneira:
começam muitos e terminam poucos.
JC - Você já pensou em parar
de jogar?
TINHO - Passou algo na
minha cabeça quando eu soube da minha cirurgia. Tive uma
ruptura do ligamento cruzado e pus dois pinos no joelho.
É uma operação que há uns dez anos fazia muitos
jogadores pararem. Mas, com o avanço da medicina, isso
já se torna possível: operar e voltar a jogar
normalmente, como eu voltei e o próprio Amoroso
(atacante da Seleção Brasileira) também voltou.
Primeiro vem o choque porque você acha que aquilo nunca
vai acontecer com você e depois tem a fase de
recuperação, que é muito dolorosa. Você questiona se
todo esse esforço compensa (...).
JC - O que você gosta de fazer
quando não está jogando?
TINHO - O tempo que eu
tenho de folga em relação ao futebol, procuro estar
sempre ao lado da minha família. Tem a internet, que
hoje é um vício. Passei a gostar no período em que
fiquei na Arábia Saudita até porque era o único meio
de poder ler um jornal, uma revista e saber notícias em
relação ao futebol brasileiro.
JC - Você passa quantas horas
por dia na frente do computador?
TINHO - Fico umas
três horas por dia. Tenho até um portátil (notebook)
que onde eu vou, até na concentração, está sempre
comigo. A gente se diverte bastante. Serviu até para
alegrar o grupo, de uma certa forma. Eleomar, que dividia
o quarto comigo, às vezes reclamava porque dava uma,
duas horas da manhã, ele apagava tudo e a luz do
computador ficava clareando. Mas ele é uma pessoa por
quem eu tenho um carinho muito grande e compreendia numa
boa.
JC - Em que sites você entra
mais?
TINHO - Costumo bater
muito papo. Depois do jogo da classificação, entrei num
site do Recife, conversei com dez tricolores e me
identifiquei como Tinho. Eram muitas pessoas dando
parabéns uns aos outros pela classificação e eu sentia
que todos estavam felizes. Achei legal me identificar
para conversar. No início foi muito difícil porque
alguns deles não acreditaram que estavam conversando com
um jogador. Mas, no final, batemos um bom papo.
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