LG_jc.gif (3670 bytes)

COMPORTAMENTO
A realidade através dos sonhos

por MONA LISA DOURADO

Um dia o faraó do Egito sonhou. Eis que estava de pé na beira do Rio Nilo. Eis que saíram do rio sete vacas bonitas e gordas, que começaram a comer o capim da beira do rio. Logo em seguida saíram do rio outras sete vacas, feias e magras, que se aproximaram das bonitas e gordas e as engoliram. Eis que o faraó acordou". (...) "Então José disse ao faraó: Por meio do sonho, Deus está dizendo ao senhor o que ele vai fazer. Virão sete anos em que vai haver muito alimento no Egito e depois virão sete anos de fome, de modo que a fome será tão terrível que ninguém se lembrará do tempo em que houve fartura de alimento".

Como se pode deduzir da passagem bíblica, a idéia de interpretar sonhos sempre esteve presente em toda a história da humanidade. Encarados ora como sinais divinos, visões proféticas, fantasias sexuais, realidade alternativa ou qualquer outra representação, o sonho foi, nas culturas antigas, e ainda é, em muitas das atuais, um fenômeno que desperta curiosidade e fascínio, pela sua natureza enigmática e intrigante.

Não foram poucos os filósofos, místicos e cientistas que tentaram explicar a origem e o significado dos sonhos, tendo a maioria deles chegado às mais diferentes respostas. Considerado pela medicina, ao longo dos anos, como resíduos das atividades diárias - algo anárquico e caótico - o sonho só veio a ser analisado em toda a sua complexidade no início deste século, pelo pai da psicanálise, o austríaco Sigmund Freud.

Em A Interpretação dos Sonhos, sua obra máxima, Freud ousou propor a hipótese de que os sonhos eram cientificamente interpretáveis e não simplesmente fantasias aleatórias e bizarras, promovendo uma polêmica que se estende até hoje, por abalar os alicerces de racionalidade e conseqüente segurança lógica do ser humano.

"Explorando os labirintos da mente, Freud montou sua primeira teoria do inconsciente, segundo a qual os sonhos seriam uma via privilegiada de acesso a pensamentos e desejos intrínsecos, que se realizam de forma disfarçada, substituindo o pensamento e o desejo originais por uma outra representação", explica o psicanalista Marcelo Freire, professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Seguindo esse raciocínio, os sonhos seriam compostos por obscenidades, vida sexual reprimida, agressividade forte e uma série de prazeres que tiveram de ser abandonados.

De acordo com o professor, para chegar a tal conclusão, Freud ouviu atentamente, durante anos, pacientes histéricas internadas em clínicas médicas, percebendo que o problema estava ligado à história de vida dessas pacientes. Os seus traumas iam sendo revelados a partir do relato constante de seus sonhos. "Através dessas conversas e observações, Freud descobriu a psicanálise, a cura pela palavra", continua Freire.

Assim, os sonhos passaram a ter aplicação efetiva no que se refere à prática clínica, uma vez que apresentaram-se como elementos fundamentais para um tratamento eficaz de determinados problemas, especialmente das neuroses.

Uma mãe nervosa, por exemplo, com um bebê de dois meses e que não sabe como cuidar dele, de repente tem um sonho de que o bebê está caindo de suas mãos. Posteriormente, ela diz temer que o pai se aproxime da criança com medo que ele possa derrubá-la e só então, numa sessão seguinte, ela acaba admitindo que tem compulsão de jogar o bebê no chão. "Esse caso é bastante ilustrativo porque, em três etapas, o psicanalista viu aquele desejo representado no sonho aparecr claramente e, dessa forma, pôde ajudar a paciente", constata Freire.

SONHO HOMOSSEXUAL - O método geral que Freud propôs para a interpretação de todos os sonhos foi o das associações livres a partir de cada elemento contido nos sonhos, como observa o professor: "Para Freud o sonho é uma mensagem cifrada, uma charada cujo significado só pode ser desvendado quando inserido em um contexto específico".

Os motivos pelos quais o inconsciente existe também são analisados por Freud. Ele seria resultado de um conflito entre um desejo e uma censura igualmente inconscientes. O sonho seria justamente o reflexo dessa contradição. O fato de as pessoas muitas vezes não lembrarem o que sonharam poderia ser um indicativo da resistência em admitir certos sentimentos.

Uma ilustração dessa hipótese, segundo Freire, é a de um indivíduo que chega ao consultório dizendo que sonhou com dois garotões na praia e não entendeu o significado daquelas imagens. Durante a consulta ele revela que está chateado com um problema sério de relacionamento porque já tentou namorar diversas mulheres e nada tem dado certo. "Ao longo da análise pode-se revelar um desejo homossexual inconsciente, que para ele é inadmissível", diz, acrescentando que, se esse paciente sonhar tendo uma relação sexual com outro homem, sem dúvidas o sonho será de angústia.

Embora a teoria freudiana sobre os sonhos seja provavelmente a mais conhecida fora dos limites acadêmicos, ela não é a única. Enquanto que para Freud o sonho é resultado apenas das vivências individuais, para Jung - o seu discípulo mais brilhante, que rompeu com o mestre ainda em 1912, por discordar de suas opiniões - o inconsciente se divide em duas porções: o pessoal e o coletivo.

Enquanto o pessoal armazena as vivências individuais, o coletivo seria formado pelo registro de todas as memórias da humanidade, como a mitologia, o folclore e a religião, além dos símbolos e comportamentos universais. O sonho, então, seria a revelação desse inconsciente, cujo conteúdo é formado não só por desejos reprimidos, como também pelos arquétipos universais, que são modelos de situações cotidianas.

Além dos aspectos psicocomportamentais, muito se avançou nos estudos de neurofisiologia nos últimos anos. Hoje, já se sabe que os sonhos são entendidos como parte do ciclo do sono e que são determinados biologicamente. Considerando-se que a atividade psíquica nunca cessa, nem mesmo quando as pessoas estão dormindo, já se descobriu que é durante um período denominado de sono REM (rapid eyes moviment, o movimento rápido dos olhos) que os sonhos acontecem.

"Nesse estágio, percebe-se que os olhos se mexem rapidamente, havendo também uma modificação nas ondas cerebrais, que ficam dessincronizadas, isto é, aumentam de freqüência e diminuem a amplitude", explica o neurofisiologista Rubem Guedes, professor da UFPE. De acordo com ele, as pessoas só se lembram dos seus sonhos se forem acordadas ainda nessa fase. Caso contrário, elas sequer vão saber que sonharam.

_________________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 19.12.99
Domingo