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CULTURA Em cada lugar, um significado diferente Embora se estude cientificamente os sonhos no mundo inteiro, o lugar que eles ocupam na vida cotidiana das pessoas, varia enormemente de civilização para civilização e também entre as classes sociais. "Segundo a antropóloga Danielle Perin Rocha Pita, coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre o Imaginário da UFPE, de forma geral, a importância conferida ao sonho e sua interpretação se relaciona diretamente com o grau de valorização da razão dentro das diversas culturas. "Assim, em culturas não ocidentalizadas, denominadas de tradicionais, o sonho chega a assumir o papel de orientador das práticas diárias, sendo as mensagens individuais, muitas vezes, discutidas em grupo e consideradas coletivas", diz. Por outro lado, quanto mais industrializada - e conseqüentemente mais voltada para a racionalidade - a sociedade se apresenta, menos valor atribui-se ao sonho, uma vez que eles são considerados produtos da imaginação e de sentimentos individuais, devendo, portanto, ser desprezados. Tal concepção, de acordo com a antropóloga, foi ainda mais difundida a partir do Iluminismo, quando o sonho era visto como algo destituído de sentido. "Posteriormente, junto com a racionalização ocorre também um movimento iconoclasta, uma desvalorização da imagem em geral, já que ela desestabiliza, por permitir diferentes leituras. Era um motivo a mais para sequer se fazer referência aos sonhos", avalia Perin. "Na opinião da especialista, apesar de ocidental, o Brasil nunca correspondeu aos parâmetros das outras sociedades no que diz respeito à valorização ou não dos sonhos, até porque aqui as influências indígena e africana criaram um terreno propício para expansão de um certo misticismo e menor culto à racionalidade. "Os sonhos no Brasil são vivenciados a todo momento, seja no seio da família, em relação à sorte ou como premonição", avalia a antropóloga. De fato, o imaginário popular em torno dos sonhos sempre foi um aspecto bem peculiar da cultura brasileira. VACA CORRENDO - Pessoas de todas as classes sociais, especialmente as mais simples, tentam associá-los a características comuns do cotidiano ou a jogos de azar como o jogo do bicho, por exemplo. Dicionários de sonhos com interpretações fáceis e diretas são encontrados em grande número, em qualquer esquina da cidade. "E não há quem arrisque um palpite, como é o caso da empregada doméstica Marinete Barbosa da Silva, 58 anos, uma dessas pessoas que têm sempre um significado na ponta da língua: "Sonho com sangue é ruim porque significa morte. Com criança é futuro e com dinheiro é riqueza", afirma. Marinete garante que também já conseguiu prever a morte de uma pessoa, depois de ter sonhado com um caixão e já ajudou uma amiga a ganhar dinheiro no jogo do bicho, após ter visto, em sonho, uma vaca correndo. |
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