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MACAU
Território de língua portuguesa volta hoje ao domínio da China

por BROOK LARMER E MAHLON MEYER
AE/NEWSWEEK

PEQUIM - Os momentos finais da última e mais antiga colônia ocidental na Ásia irão parecer, para um observador casual, absolutamente dignatários. Logo mais, um pouco antes da meia-noite, o presidente chinês Jiang Zemin, o presidente português Jorge Sampaio e 2.500 convidados irão se juntar em um salão de banquetes translúcido de vidro e aço em Macau para brindar o final de quase 442 anos de ocupação portuguesa. Quando o relógio na catedral de Macau marcar meia-noite, Portugal irá baixar sua bandeira em seu império que termina - e a bandeira vermelha da República Popular da China será levantada no lugar. O Champagne irá correr, fogos explodirão e Zemin saberá que ele e seu Governo estarão a um passo de seu objetivo final: a reunificação da China.

Grande pompa e espetáculo, mas o fato é que a real transição para o domínio chinês já começou duas semanas atrás - e foi totalmente civil. Em 23 de novembro, o gangster mais poderoso do submundo de Macau, Wan Kuok-koi (apelidado de Dente Quebrado), entrou na corte número 1 do mais antigo tribunal de Macau para enfrentar o veredito em seu julgamento criminal. Vestido com um terno cinza com listras, o líder de 44 anos do 14K - uma sociedade secreta, ou tríade, que alimenta a indústria do jogo em Macau - parecia confiante enquanto sorria, piscava e conversava com seus amigos.

Ele já esteve lá antes, e parecia seguro de que seu poder - que assustou várias testemunhas-chave - fará sua mágica de novo. Ferdinand Estrela, o juiz português trazido apenas para seu julgamento, respirou profundamente enquanto lia cada uma das acusações - liderança da tríade, lavagem de dinheiro, agiotagem, escuta telefônica - e entonou: `culpado'. A sentença: 15 anos, a máxima.

Após um momento de silêncio surpreendente, a corte entrou em erupção. Os aliados do gangster na audiência, incluindo pelo menos uma de suas quatro esposas, gritaram de raiva. Conforme Estrela saía rapidamente da sala com uma guarda armada, Wan, agora algemado, gritava maldições para o juiz. Wan subiu em um banco e se voltou para a galeria. `O juiz foi influenciado!', gritou. Ele então olhou para baixo, onde um grupo de guardas da prisão, todos com coletes à prova de balas, estava pronto para levá-lo embora. Ele chegou perto de um dos guardas, colocou dois dedos em sua cabeça e disse: `Eu te matarei'. Mais tarde, sentado na nova prisão de máxima segurança construída especialmente para ele e para seus comparsas, Wan deve ter se dado conta da repentina maré de azar da irmandade do submundo de Macau.

No mesmo dia, logo após a fronteira em Zhuhai, autoridades chinesas condenaram - e executaram - outro líder da tríade e quatro comparsas por crimes cometidos em Macau. Digam olá para o novo chefe de Macau, e adeus, por enquanto, para os antigos. O cronograma sendo coincidente ou não, muitos dos 430 mil residentes de Macau vêem a queda da tríade como um sinal: Pequim significa ação. E depois de dois anos de guerras sangrentas entre gangues e declínio econômico, poucos estão reclamando. Macau, como Hong Kong, terá 50 anos de garantia de auto-governo sob um acordo de `um país, dois sistemas' feito com a China.

Mas ao contrário da antiga colônia britânica, que se irrita com cada sinal de domínio de Pequim, Macau parece quase aliviada com a transição - mesmo a chegada de mil tropas do Exército de Libertação Popular (ELP). O povo de Macau, onde mais da metade das pessoas nasceu no grande país, nunca esteve muito ligado a fortes instituições democráticas - eles não ligam para a idéia de que Pequim pode vir e tomar conta de tudo.

"Pode-se esperar uma Macau bem pacífica e adormecida novamente", disse o bilionário proprietário de casas de jogos, Stanley Ho. "As pessoas não precisarão ter mais medo".

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Jornal do Commercio
Recife - 19.12.99
Domingo