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MACAU II
Macau sempre esteve muito ligada à China

Os portugueses, que pareciam sem esperanças em face à crescente corrupção e das guerras de gangues, querem deixar a colônia com um pouco de dignidade. Os líderes comunistas em Pequim estão ansiosos para tornar Macau um sucesso. Para eles, a entrega da colônia aponta para o futuro: Macau, como Hong Kong, deve se tornar um farol para Taiwan, a última peça para o quebra-cabeças da unificação. Como diz o advogado macaense Antonio de Almeida Ferreira: "Se Macau falhar, pode-se dizer adeus a Taiwan".

A indolente colônia portuguesa sempre teve mais laços cordiais com a terra-mãe do que Hong Kong. Diferente da colônia britânica, que foi tirada da China durante as Guerras do ópio no século 19, Macau foi estabelecida três séculos depois com a cooperação da terra-mãe (os chineses que se estabeleceram em Macau eram em sua maioria fazendeiros buscando uma forma melhor de viver, enquanto Hong Kong tendia a acolher chineses em busca por liberdade intelectual ou grandes negócios).

TERRA-MÃE - Os britânicos importaram as leis e as instituições democráticas, enquanto os portugueses deixaram um rico estilo de vida - boa comida, esplêndida arquitetura, relações pessoais amistosas -, mas poucas instituições fortes para defender. Nos anos 70, na verdade, Portugal pediu para que a China pegasse de volta sua última reminescência de império. Mas Pequim quis esperar. Agora que o momento chegou, muitos donos de lojas de Macau estão comemorando o fato com grandes mensagens em vermelho que dizem: `bem-vindo seja o retorno para a terra-mãe'.

Mesmo assim, alguns presidentes de Macau - especialmente os mais jovens - temem que o modo de vida não seja tão livre após a entrega. De Almeida, o advogado, teme que a pressão chinesa para condenar criminosos possa resultar em advogados e juízes passando por cima de procedimentos legais e direitos individuais. "Macau é uma criança obediente", ele disse, "e sabe o que papai quer".

Em uma clara manhã de domingo recentemente, casais que queriam se casar se alinharam em frente à igreja Católica Romana Nossa Senhora. "Nós estamos nos apressando para nos casarmos antes da entrega", disse Anna Lou, 27 anos, segurando um telefone celular em sua orelha sob o véu. Ela e seu noivo, Thomas Ng, se conheceram cinco anos atrás em um dos cassinos locais, onde ambos trabalham. "Nós não sabemos se o governo chinês irá permitir que nos casemos em uma igreja sem permissão", disse.

Mas Pequim não vai mudar o modo especial de vida de Macau, mesmo ela tendo sido construída sobre algo que os comunistas abominam: a esquálida atmosfera de hedonismo-para-lucro que prevalece na cultura de cassinos de Macau. Jogar é ilegal na China. Mas Macau depende do jogo para 60% de seus lucros, e os líderes chineses são pragmáticos. Ninguém está sugerindo uma mudança. Não há alternativas viáveis. Já se foram os dias quando Macau era o posto comercial mais rico na Ásia, monopolizando o comércio de sedas e especiarias, ouro e prata - e mandando missionários para salvar almas.

Quando os britânicos abriram o porto de águas profundas de Hong Kong em 1841, logo eclipsando o de águas rasas de Macau, o local antes chamado de "A Cidade do Nome de Deus na China" se voltou para o tráfico de escravos e, 20 anos depois, legalizou o jogo. Quem podia imaginar que isto se tornaria o legado mais duradouro da colônia? Hoje, Macau é um lugar de elegantes prédios coloniais tomados por grandes cassinos, onde prostitutas da Rússia e da China se alinham nos corredores e as tríades criminais dominam as ruas.

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Jornal do Commercio
Recife - 19.12.99
Domingo