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FUTEBOL
Cartolas entre o gol e o voto

por CARLA SEIXAS

Política e futebol muitas vezes andam juntos. Cartola que se elege para um mandato político não é novidade, mas atualmente, em Pernambuco, a mistura se evidencia com maior força. O sucesso do Santa Cruz, com o retorno garantido do clube à Primeira Divisão do futebol, e a derrocada do Sport, com a `lanterninha' na competição, são temas que extrapolam os estádios e chegam com facilidade ao debate político. E a proximidade do Campeonato Pernambucano aumenta ainda mais o `intercâmbio'.

Muitos candidatos a cargos no Legislativo aproveitam o momento para `cair em campo', atrás de votos. São os cartolas do futebol. O sucesso do time pode ser a permanência no mandato, ou o passaporte para um novo cargo. É o caso do ex-deputado federal Wilson Campos (PTB), que está assumindo o Conselho Deliberativo do Náutico. No mesmo clube, o vereador Fred Oliveira (PMDB) vai assumir, em janeiro, a presidência executiva. E o vereador José Neves (PMDB) pode comandar a direção de futebol do Santa Cruz. Mas a lista dos que estão retornando aos clubes não pára por aí.

O vereador Homero Lacerda (PSL) foi presidente do Sport no biênio 87/88, quando o time venceu o Campeonato Brasileiro e o Estadual. Os `frutos' das conquistas foram parar nas urnas. Com o slogan `O voto de garra', Homero foi o segundo vereador mais votado no Recife. "Tive 8.400 votos em 88. Sei que devo essa votação ao clube", lembra.

Depois dessa experiência, Homero passou seis anos alternando o comando do Conselho Deliberativo do Sport. "Esse cargo serve mais para ligar você à elite da Casa, e não à torcida", avalia. Agora, ele voltou a ocupar um lugar de destaque para os torcedores: por coincidência, na entrada do ano eleitoral, assume a vice-presidência do futebol. Estará na função no ano em que tentará renovar o mandato e o Sport irá buscar o inédito pentacampeonato.

Pode-se considerar como uma prova de fogo para qualquer candidato. O desempenho do time será diretamente relacionado ao da pessoa de comando. "É um risco grande que corremos. O futebol não tem memória, além de ser regido por emoção", comenta o deputado federal Luciano Bivar, atual presidente o Sport e que também se elegeu com votos da torcida.

Em 98, Bivar manteve um programa na Rádio Continental só com notícias do Sport. "Não havia conotação política. O programa existiu porque o time estava participando do Campeonato Brasileiro e tinha muita informação a ser passada", garante o deputado, que na mesma época fazia campanha. Com o final do campeonato - e da contagem de votos - encerrou o programa.

Com a chegada do Santa Cruz à Primeira Divisão, o time volta a ficar em evidência e é a melhor hora para lucrar com a associação da imagem pessoal à do clube. Durante quatro anos, o vereador José Neves foi presidente do clube. No último ano em que esteve no comando, o time não conseguiu nenhum título importante, mas mesmo assim ele conseguiu se eleger. "Tenho votos de vários segmentos. Um deles é o da torcida do Santa", garante. Agora, ele tem a chance de entrar o ano comandando um time que está com o moral elevado.

Além de José Neves, outros nomes têm ligação com o Tricolor, entre eles os vereadores Jorge Chacrinha (PMDB-Recife) e Alexandre Mirinda (PFL-Olinda) e o atual secretário municipal de Habitação (vereador licenciado) Antônio Luiz Neto (PRTB).

Está na lista também o deputado federal José Mendonça (PFL), presidente da Comissão Patrimonial, que vem melhorando a estrutura do Santa. Já adquiriu até um placar eletrônico. "Ele está emprestando seu prestígio ao clube", garante o deputado estadual Augusto Coutinho (PFL), que é conselheiro. "Costumo ajudar a torcida Inferno Coral. Faço isso não pela troca de voto, mas pela ligação que tenho com eles. A política clubista é mais difícil do que a partidária", diz. No caso de Mendonça e Coutinho, vale a ressalva: eles assumiram cargos no clube depois de atuarem na política, com mandato.

Depois de comandar por dez anos a Federação Pernambucana de Futebol, o vereador Fred Oliveira (PMDB) chega agora à presidência do Náutico. Ele adverte que o `intercâmbio' é arriscado. "Um lucro é a exposição na mídia, que se torna constante de acordo com a atuação do time. Mas é um vínculo vulnerável, tanto vem a favor quanto contra", diz.

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Jornal do Commercio
Recife - 19.12.99
Domingo