LG_jc.gif (3670 bytes)

TRADIÇÃO II
Fé e sacrifícios no dia da homenagem

São sete horas da noite quando Pai Genivaldo começa o padê (cerimônia dedicada a Exu), oferecendo seus cânticos ao santo mais poderoso dos rituais afros e primeiro orixá a ser homenageado em qualquer festa de santo. Esta noite é especial para os participantes da casa: além da celebração dedicada à Iemanjá, a dona do terreiro, uma filha de Xangô vai sair do retiro a que se submeteu durante três dias, quando realizou obrigações para o seu santo. Sobre a mesa, pequenas Nossas Senhoras foram colocadas dentro de conchas transparentes e cobertas com purpurina prateada. Para os estudiosos, sincretismo em estado bruto. Para os filhos de Iemanjá, uma simples homenagem à mãe de todas as divindades africanas.

As obrigações para Dona Janaína tiveram início dois dias antes da festa. Todos envolvidos já estão purificados. Para Dona Janaína, foi dado um carneiro, galinhas e peixes. "Cada filho de santo oferece o que pode", diz Genivaldo. "Vai depender muito das posses de cada um", continua.

Somente o ogã axogum (pessoa que faz os sacrifícios) pode realizá-los para os orixás, um ritual presenciado unicamente por iniciados no Candomblé. As partes do animal morto que são dedicadas ao orixá são os pés, o fígado, a moela, as asas, o coração e cabeça, dependendo do bicho sacrificado. O resto vai ser preparado pela iabassê, a responsável pela comida do terreiro, para ser distribuído aos filhos e visitantes da casa. "Depois, no fim da festa, descarregamos o pêji. O que é do mato, vai pro mato. O que é do mar, pro mar", continua Genivaldo, há 12 anos formado babalorixá.

Um dos grandes momentos da festa de Iemanjá realizada no terreiro de `pai gê' foi a entrada de Xangô, que visitou o local se `apossando' do corpo da professora H. N., que preferiu não publicar o seu nome por conta do forte preconceito ainda sofrido pelo povo de santo. Enquanto Xangô adentrava o terreiro, seus filhos entravam em profunda transformação. Dona Jacira Viana, 43 anos, vestindo uma blusa vermelha de cetim, a cor do orixá Deus do Trovão, não consegue se controlar e chora compulsivamente. "Estou em débito com ele", diz.

Enquanto os filhos do Terreiro de Iemanjá se aproximam do momento da levada das oferendas, em Jardim Brasil 1, Olinda, os iniciados de Raminho de Oxóssi começam a preparar o padê. A festa promete: além da própria popularidade da orixá, vários pais-de-santo de outros terreiros foram convidados. Uma das primeiras a chegar é mãe Aliete, dona de um terreiro em Sapucaia de Dentro.

Junto a ela, suas duas filhas de sangue e outros tantos filhos de santo. "Todo mundo quer ver a festa. Quem é pai ou mãe-de-santo já se acostumou com os visitantes", diz Aliete.

A estudante Juliana Barbosa, 16 anos, se preparou bem para o encontro no barracão de pai Raminho: colocou maquiagem, salto alto e trançou os cabelos. Dança fora da roda de baianas, acompanhando as batidas sincopadas da orquestra de ogãs (músicos). "Sempre venho com minhas amigas", conta Juliana, declarando-se filha de Xangô com Oxalá. Para saciar a fome de quem não agüenta esperar pelo término da festa para dividir a comida com Iemanjá, foi instalada uma pequena barraca de cachorro quente. Sessenta centavos cada um.

FLORES AO MAR - Durante a festa de Raminho de Oxóssi, enquanto canta-se para Dona Janaína, várias pessoas são dominadas pela orixá das águas salgadas. Homens e mulheres curvam-se perante a Iemanjá, vestem suas roupas e banham-se de alfazema. Está perto da hora de levar as flores ao mar (a praia escolhida foi Pau Amarelo). A panela, repleta de oferendas, é amarrada sobre um carro. Os filhos de santo seguem num micro-ônibus, onde continuam a cantar para a deusa.

Geralmente, o ritual, na praia, segue um mesmo molde: um pescador é chamado para levar a oferenda até longe da margem. Quem leva a panela para a canoa é um filho de Ogum, orixá guerreiro, casado com Iansã, Oxum e Obá. Ainda em transe, alguns filhos cantam para a Rainha do Mar. Segurados pelas equédis (ajudantes do terreiro que não `recebem' o santo mas são iniciadas na religião), filhas e filhos cantam uma monocórdica canção, como um mantra.

As oferendas vão sendo levadas até o mar, e, momentos depois, os pescadores voltam, ainda emocionados. "É a festa mais bonita para todos nós", diz uma psicóloga filha de Iemanjá que, vestida de baiana, homenageia sua mãe às duas da manhã, à beira da praia.

A festa não termina com a levada das oferendas. Qualquer ritual para um orixá num terreiro que se preze precisa ser findado com as canções para Oxalá (ou Orixalá). "Apenas ele pode fechar o axé da obrigação", comenta Pai Genivaldo. Nesse momento, no final do encontro no barracão, são distribuídas as comidas que não foram para o santo. Os filhos, exaustos, começam a se retirar e a seguir para suas casas, onde continuam suas vidas como pessoas comuns. Na próxima festa de santo, eles se tornam, novamente, em divindades. (F.M.)

_________________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 16.12.99
Quinta-feira