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TRADIÇÃO IV
Uma deusa africana com filhos católicos

Apesar de não ser bem visto tanto por católicos quanto pelos filhos de santo mais ferrenhos, o sincretismo religioso é uma das características mais curiosas no mundo do Candomblé. Iemanjá virou Nossa Senhora, Oxum é Nossa Senhora das Candeias, Oxóssi é associado a São Jorge. O fato já provocou a ira da famosa Mãe Stela de Oxóssi, do terreiro Axé.

Iemanjá é associada a santas católicas tanto no Brasil quanto em Cuba, onde é sincretizada com a Santa Virgen de Regla, festejada no dia 8 de setembro. Na terra de Fidel, o dia da Natividade de Nossa Senhora (o mesmo 8 de setembro) atrai uma multidão ao bairro de Regla, subúrbio de Havana.

Lá, perto da igreja local, existem duas irmandades religiosas compostas de descendentes iorubás. Nos altares da irmandade, imagens de santos católicos, enfeitados ao extremo, estão ligadas diretamente ao candomblé. As imagens mais surpreendentes são a da Virgen de la Caridad del Cobre (Oxum), a própria Virgen de Regla (Iemanjá) e a Virgen de la Merced (Orixalá).

Para o professor do Departamento de Filosofia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Inácio Strieder, o sincretismo, que nasceu para "proteger" os escravos do preconceito, já se tornou uma característica do ecletismo religioso típico do Brasil. "Se analisarmos esse fenômeno, veremos que ele é vago, principalmente se forem estudadas as origens desses deuses católicos e os africanos", diz. Para o professor, o ideal, dentro da religião, é que se preserve as características e estruturas de cada linha. "Cada um tem seus próprios códigos", continua.

O jeito brasileiro de tornar a africana Iemanjá uma figura mais "aceitável" foi pintá-la de branca, com longos cabelos lisos e negros. Mais tarde, a imagem foi se latinizando, e a orixá foi sincretizada com uma sereia, justamente a Dona Janaína dos pescadores. Aqui, ela é sempre magra, esbelta, bastante distante de sua imagem inicial, onde é representada por uma figura redonda, de seios enormes.

Conta Pierre Fatumbi Verger, no seu livro Orixás, que um padre católico do Rio de Janeiro, organizou, na noite do dia 31 de dezembro (quando os terreiros do Rio costumam levar as oferendas para o mar), uma procissão na praia visando atrair os católicos. Durante a procissão, o povo do candomblé começou a acompanhar a imagem. Logo que a caminhada terminou, os filhos de santo voltaram para seus rituais e continuaram, com a imagem de Nossa Senhora na mão, a cantar para Iemanjá.

ZEUS E OXALÁ - Apesar da forte presença entre os brasileiros o candomblé pode, para o teólogo Inácio Strieder, estar fadado ao desaparecimento. "Acredito que, daqui a cerca de 1000 anos, as figuras do candomblé estarão para nós da mesma forma que são hoje as lendas da mitologia grega", acredita. (F.M.)

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Jornal do Commercio
Recife - 16.12.99
Quinta-feira