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TRADIÇÃO V
Afoxé leva alegria do santo para rua

por BRUNO ALBERTIM

Os terreiros de candomblé não são os palcos exclusivos da celebração dos orixás no Brasil. A presença das divindades africanas pode ser contemplada nas apresentações de afoxés. Pernambuco, que há anos é tido como celeiro exclusivo de outra manifestação cultural de grande influência afro - os maracatus - é também o Estado que, ao lado da Bahia, mantém viva a tradição dos cortejos fortemente marcados pelo toque do agogô. São miçangas, tambores, saias, vozes e danças que se misturam para celebrar o Pernambuco africano. Recife e Olinda possuem um instigante roteiro de reencontro com as raízes que vieram do outro lado do Atlântico.

Neste final de século, quatro importantes agremiações se dedicam ao afoxé no Estado. Cada uma tem um orixá de devoção e, no carnaval, seus cortejos saem às ruas com dezenas de seguidores para fazer a festa em homenagem às divindades. "O povo africano sempre teve uma tradição festiva, por isso a importância do carnaval", justifica Dito d'Oxóssi, babalorixá e presidente do afoxé Ilê de Egbá.

É bom lembrar que é também num notório reduto de maracatus - o Pátio do Terço no bairro de São José - que os músicos, cantores e bailarinos dos afoxés se reúnem na terça-feira de Momo em memória dos mortos nos antigos navios negreiros. É quando acontece a Noite dos Tambores Silenciosos.

Mas, enquanto fevereiro não chega, os shows e ensaios podem ser visitados em lugares como a rua da Moeda, no Recife Antigo, ou a colônia Z-4, no Carmo, em Olinda. Tradicional colônia de pescadores, a Z-4 vem se tornado uma das mais férteis vitrines para os afoxés pernambucanos.

Às sextas, sábados e domingos, os grupos se revezam no pequeno palco do lugar. É lá que, a partir do próximo domingo, o Ilê inicia a campanha de shows Axé Vermelho e Branco. Com as cores de Xangô, o grupo pretende evidenciar a presença negra na cultura destes quinhentos anos de descoberta do Brasil.

QUANDO ELA CHEGA - A escolha do orixá que irá proteger o afoxé não é aleatória. Cada grupo possui um babalorixá responsável pelo lado espiritual da agremiação. Através da consulta aos oráculos da tradição, o jogo de 16 búzios, o pai-de-santo irá saber que divindade aceita guiar os caminhos do afoxé. "Sou filho de Oxum e ao jogar os búzios, recebi a resposta de que ela aceitava conduzir nosso afoxé", conta Genivaldo Barbosa, babalorixá e presidente do afoxé Oxum Pandá.

Assim, o grupo recebeu a proteção da deusa das águas doces, da beleza e do ouro. E para honrar as graças da orixá, o afoxé tem a belíssima voz da cantora Luciene Loyci, afilhada de Clara Nunes, como moldura para os cantos que o grupo entoa. Assim como a madrinha, Luciene, de pele clara, tem seguros timbres negros na voz."É uma maravilha poder, com o meu canto, homenagear as entidades do candomblé", diz a filha da guerreira Iansã, que se veste em amarelo da cabeça aos pés para subir ao palco, já que esta é a cor da patronesse do grupo.

Foi por procedimentos semelhantes que o afoxé Ilê de Egbá tornou-se protegido de Xangô; O Alafin Oyó também; e um quarto afoxé, o Ará Odé, dedicado a Oxóssi, o orixá das caças e das matas. "Nós não escolhemos o orixá. Ele é que nos escolhe", explica Dito d'Oxóssi, presidente e babalorixá do Afoxé Ilê de Egbá. "É uma benção ser de Xangô, pois é ele quem determina uma série de conquistas e o traço guerreiro do povo nordestino", avalia Dito.

Na cultura afro, as palavras não bastam. A dança é elemento importantíssimo. A bailarina e filha de santo de Genivaldo Barbosa, do afoxé Oxum Panda, Lúcia Alves, é uma das mulheres que faz de seu corpo um dos principais elementos para a comunicação com os orixás. Ela costuma se apresentar com as roupas e símbolos de Yemanjá.

"Nos shows, faço uma homenagem. Mas no terreiro, é estar em contato direto com o orixá", diz Lúcia, que durante o mês de novembro esteve nas festas para a divindade na casa de seu pai-de-santo. Só nos preparativos das oferendas, consumiu quatro dias seguidos. "É maravilhoso poder retribuir o que recebemos", diz.

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Jornal do Commercio
Recife - 16.12.99
Quinta-feira