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Expectativas por JOÃO CARLOS PAES MENDONÇA* No auge da crise econômica gerada pela recente desvalorização do Real, surgiu uma grande quantidade de projeções, estimativas, profecias sobre o comportamento futuro da inflação, assinadas por prestigiosas instituições financeiras ou renomados especialistas em análise econômica. Os números eram muito diferentes entre si, mas eram todos grandes. Esperava-se que a inflação deste ano fosse no mínimo de 12%, mas a maior parte das previsões ficava entre 15% e 25%, concluindo-se que haveria a volta da ciranda inflacionária, anulando-se os ganhos obtidos até então com o Plano Real. Ficou rapidamente comprovado que aquelas previsões eram equivocadas. Eram nada mais do que palpites, lastreados numa visão pouco realista sobre as transformações que já tinham acontecido no Brasil, nos quase cinco anos de vigência do Plano Real. Imaginava-se que, dada a nossa cultura inflacionária, seria reativado o mecanismo de repasse circular dos aumentos de preços, resultando na formação de novos preços relativos num patamar mais elevado e mais condizente com a nova realidade cambial. Não viram os analistas que o mercado já não é mais o mesmo e que reagiria fortemente aos aumentos de preços. Os consumidores, com seu poder de compra já bastante apertado e comprimido por taxas de juros exageradamente altas, não aceitaram preços mais altos, reagiram, e tiveram o comércio varejista, especialmente os supermercados, como grande aliado. A reação foi muito rápida, mostrando uma completa aversão à cultura inflacionária do passado. O próprio setor de serviços pessoais que sempre teve grande apetite e facilidade para aumentar preços, desta vez não ousou ir muito longe. Além disso, não mais existe a indexação automática dos preços, que antigamente realimentava a inflação nossa de cada dia. Em resumo, as expectativas não se confirmaram, o mercado mostrou que está vivo e é confiável, a crise foi afastada num período bem mais curto que o esperado, o Plano Real mostrou que tinha feito o seu papel. Mas, passados alguns meses, surgem novos motivos de apreensão. Desta vez, uma sucessão de crises políticas aumenta mais as dúvidas quanto à realização das esperadas reformas constitucionais, que são necessárias para que se complete o processo da estabilização e para a retomada do desenvolvimento. A continuidade das reformas está na dependência do bom senso e da vontade das nossas lideranças políticas. Além disso, tivemos nos últimos dias uma forte concentração de aumentos de preços controlados, destacando-se os combustíveis, a energia elétrica e os transportes, que têm impacto nos custos das empresas e acabam levando também a aumentos na ponta. E, para somar, voltamos a pagar a CPMF, agora com alíquota maior, de 0,38%, cujo efeito cascata terá inevitavelmente um impacto dobrado para os consumidores: reduz sua renda, porque é mais um imposto, e eleva os preços que ele terá que pagar. Mesmo assim, não há por que esperar a volta da inflação, já que, sem indexação, não há como perpetuar os efeitos desses aumentos nos índices de preços. Porém, também não se pode omitir o fato de que esses movimentos recentes causam uma realocação dos recursos disponíveis na economia, onde o setor privado (empresas e pessoas) perde uma fatia da renda em favor do setor público. E isso não é bom. Vamos esperar e torcer para que, mais uma vez, as expectativas pessimistas sejam derrubadas pela realidade. *João Carlos Paes Mendonça é Presidente do Grupo Bompreço e do Sistema Jornal do Commercio de Comunicação |
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