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CIÊNCIA
Saiba como cérebro do canhoto funciona

por JOSÉ REIS
AF

Muito se tem estudado e especulado sobre o funcionamento do cérebro dos canhotos. O uso preferencial de uma das mãos está muito ligado à distribuição de funções entre os hemisférios cerebrais. Estes, sabe-se hoje, são funcionalmente assimétricos. O esquerdo é geralmente ligado ao controle dos aspectos cognitivo-racionais da linguagem, e o direito, à compreensão musical, à identificação das relações espaciais e ao controle dos aspectos afetivos da linguagem.

Em 95% dos destros e 70% dos canhotos, os aspectos cognitivo-racionais da linguagem são controlados pelo hemisfério esquerdo. Em metade dos canhotos restantes, a linguagem é controlada pelo hemisfério direito. A outra metade não mostra assimetria, sendo a linguagem controlada igualmente pelos dois hemisférios. Estudos comparados não apontaram diferença de desempenho entre canhotos e destros em testes verbais.

Quando nasce, a criança não tem lateralização definida, que só se instala progressivamente e se estabiliza dos 6 aos 8 anos, com o começo da prática da escrita. Uma lesão no hemisfério esquerdo causa afasia em 95% dos destros. A freqüência e a velocidade da afasia são maiores nos ambidestros ou nos que têm antecedentes familiares de canhotismo ou ambidestralidade.

Nos destros, uma lesão do hemisfério direito só afeta em geral a prosódia, a linguagem perde a entonação, o relevo. Lesão do hemisfério esquerdo no canhoto e no ambidestro provoca afasia mais vezes que uma lesão no direito. Essa afasia regride melhor que nos destros. A explicação das diferenças entre canhotos e destros parece encaixar-se na explicação geral da repartição assimétrica das grandes funções cerebrais. Das muitas explicações aventadas, três gozam de maior voga: a hipótese anatômica, a genética e a relacional.

A hipótese anatômica considera que até 1960 os trabalhos desse tipo salientavam a semelhança morfológica dos dois hemisférios. Mas, em 60, Geschwind e Levine mostraram que uma zona do lobo temporal é muito mais extensa à esquerda. Em 1980, Geschwind e Galaburda revelaram assimetria na área de troca, favorecendo o lado esquerdo. Tal assimetria está presente no feto desde a 31ª semana de vida. Já se demonstrou que na maioria dos canhotos com lesão cerebral esquerda a linguagem é controlada pelo hemisfério direito, ao passo que, nos sem lesão, ela é controlada exclusivamente pelo hemisfério esquerdo. O número de canhotos é maior em crianças com dificuldade de aprendizagem e em portadores de lesões cerebrais precoces.

A hipótese genética baseia-se na verificação da existência de tendência familiar ao canhotismo. Em 1973, Annett, em 3.604 casos, revelou que, se pai e mãe são destros, a probabilidade de o casal ter filhos destro é muito maior que nos casais de canhotos ou de canhoto e ambidestro. Haveria na maior parte das pessoas um gene favorecedor do lado direito e, na ausência desse gene, o indivíduo poderia ser canhoto ou destro. Para explicar por que pais canhotos podem ter filhos destros, Annett imaginou que os pais poderiam ter sofrido lesões cerebrais no nascimento, de modo que o fator direcionador não se manifestaria neles, mas seria transmitido aos filhos.

Segundo a hipótese relacional, a lateralização da criança se desenvolve em função do meio em que vive. Não se nota predominância manual no recém-nascido. Ele a adquire com o tempo, tornando-se destro num mundo de destros.

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Jornal do Commercio
Recife - 20.06.99
Domingo

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