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ASSUMINDO
Adultos brincam de crianças e se dão bem

por ADRIANA VIEIRA
AF

No primeiro minuto da próxima quinta-feira, dia 24, o webdesigner André Luiz Strauss, 25, vai estar em uma das sessões de estréia de "Star Wars: Episódio 1 - A Ameaça Fantasma", o quarto filme da série de George Lucas. Apesar de inédito no Brasil, o episódio já não é novidade para André. Há três semanas, ele pediu folga no trabalho, foi para os Estados Unidos e assistiu três vezes a aventura.

"É um filme para ser visto mais de uma vez, porque é cheio de detalhes. E quanto mais se vê, mais se gosta. Prometi a mim mesmo que vou assisti-lo pelo menos uma vez por semana até sair de cartaz", explica André.

Fãs brasileiros como ele devem reproduzir aqui cenas absurdas como as que aconteceram no mês passado nos EUA, onde centenas de adultos esperaram por horas, até dias, nas portas dos cinemas para ver o começo da saga do menino Anakin Skywalker.

"Além de ir aos cinemas, o roteiro de André em Nova York e Michigan incluiu lojas de brinquedos e livrarias. "Eu me senti com 14 anos, só que dessa vez com dinheiro. Gastei cerca de US$ 1.500, comprando bonecos, naves, jogos, camisetas, bonés e livros da série", conta André, que estuda engenharia naval na Escola Politécnica da USP.

A febre "Guerra nas Estrelas" deixa apenas mais visível uma faceta pouco conhecida dos adultos de hoje: sua capacidade de brincar. É cada vez mais comum ver "gente grande" assumindo seu lado "Peter Pan", fazendo coleções de bichinhos de pelúcia, lotando sessões de desenhos animados, gritando nas montanhas-russas ou se fantasiando de heróis de videogame.

"Sem "medo de ser feliz", os irmãos Denise, 33, e Anderson Gomes, 28, podem ser vistos, na marquise do Parque Ibirapuera, fantasiados, respectivamente, de Carmen San Diego, uma personagem de videogame que veste capa cáqui e boina vermelha e rouba artefatos históricos, e de agente do FBI (terno preto e óculos escuros).

"Os dois são adeptos da versão "live action" do RPG ("roleplaying games"), jogo em que cada participante representa um personagem em uma aventura. "É uma brincadeira mesmo, como quando brincávamos de casinha ou polícia e ladrão na infância, só que é mais elaborada, há mais detalhes", diz Anderson, que trabalha como balconista.

Ele compara seu passatempo ao futebol. "É como o torcedor que veste a camisa do time para assistir o jogo ou como as pessoas que se fantasiam no Carnaval", acredita.

Com uma indumentária, assim é chamada a fantasia pelos jogadores, mais sofisticada, o terapeuta Alexandre José Garzeri, 27, participa de simulações de combates medievais, baseado também no RPG, vestindo armadura de ferro, túnica com brasão e espada.

"Ele é um dos dez integrantes do grupo "Aurum Draconis". "O nosso objetivo é resgatar os costumes da Idade Média, quando os cavaleiros possuíam um código de honra muito bonito e havia mais noção de respeito", tenta explicar Alexandre.

Há todo um ritual para entrar no grupo. É preciso saber artes marciais e ter a armadura completa, feita sob medida por um artesão, que pode custar até R$ 700. Primeiro, os combates são realizados com espada de bambu e depois com a de metal.

"É uma forma de brincar, pois o combate cavaleiresco é também o resgate do padrão mítico heróico que todo ser humano tem no seu interior", teoriza Alexandre, que se reúne atualmente uma vez por semana com o seu grupo.

IMATURIDADE - Mas brincar na idade adulta é um sinal de imaturidade ou uma maneira interessante de relaxar e esquecer os problemas do dia a dia? Segundo o psicoterapeuta Ari Rehfeld, 44, professor e supervisor da clínica de psicologia da PUC-SP, pequenas parcelas de atividades lúdicas são importantes. "As brincadeiras possibilitam o desenvolvimento da criatividade e a expressão de sentimentos que dificilmente nós, adultos, podemos mostrar no mundo real. Vai significar imaturidade apenas se tomar dimensões exageradas na vida da pessoa", diz.

Ari acha que as brincadeiras de adultos são cada vez mais aceitas socialmente. "Há dez anos, um adulto abraçando o Pateta na Disney ou colecionando bichos de pelúcia seria considerado ridículo. Hoje não. As divisões entre infância, adolescência, fase adulta e até a terceira idade estão mais flexíveis", afirma o psicoterapeuta.

Pelo menos André, Denise, Anderson e Alexandre não têm medo de parecerem ridículos. "Minha família acha muito interessante. Já fiz apresentações públicas como cavaleiro e todos gostaram", garante Alexandre, do RPG.

"Minha namorada achava tudo uma tolice, mas agora ela joga com a gente", conta Anderson. De olho nesse público, e talvez conscientes das taxas decrescentes de natalidade, as empresas de brinquedos e diversão estão investindo nesse filão.

Um levantamento feito pela Crazy Brasil, distribuidora nacional da marca Garfield, mostra que 20% dos seus consumidores têm acima de 30 anos, 25% são crianças e 55%, adolescentes. "Tanto as crianças quanto os adultos se identificam com o Garfield, porque ele representa o lado negativo do homem e, ao mesmo tempo, o carinhoso. Já vi um senhor de 80 anos sair de uma loja abraçado com um Garfield de pelúcia", diz o diretor-comercial da Crazy Brasil, Roberto Ruggeri.

"Segundo Mônica Gregori, gerente de marketing da Buena Vista Home Entertainment, que distribui os vídeos da Disney no Brasil, cerca de 10% dos filmes da marca são legendados, justamente para atender o público adulto.

"Parte do plano de mídia do lançamento nacional do vídeo "O Rei Leão 2", por exemplo, foi dirigido aos adultos, porque sabemos que as histórias da Disney encantam tanto os filhos como os pais", diz Mônica.

A ceramista Célia Terezinha Girardi de Paiva, 51, faz parte desse público-alvo. Ela já foi quatro vezes a Disney World na Flórida e uma à Disneyland de Paris, sempre assiste filmes infantis e coleciona os bichinhos de pelúcia da Parmalat.

Sua filha mais velha, a publicitária Débora Girardi de Paiva, 26, é a sua grande companheira nesses momentos. No próximo sábado, dia 26, elas vão assistir a estréia de "Tarzan", novo desenho da Disney. Pagaram R$ 80 por cada ingresso, que dá direito a um espetáculo com bonecos vindos de Orlando (EUA).

"Sou disneymaníaca, sempre quero conferir tudo o que aparece da Disney no Brasil. Já fui aos espetáculos de patinação no gelo e sempre assisto os desenhos", conta Débora, que é solteira e namora há sete anos.

Nas férias de 1998, 97, 96, ela deixou o namorado aqui e embarcou com a mãe para a Flórida. Passou 40 minutos em uma fila para tirar uma foto ao lado da "Pequena Sereia" e andou em várias montanhas-russas do Busch Gardens. "O meu namorado acha um exagero, mas sabe que eu tenho esse direito. Ele só gostaria que eu conhecesse outras coisas. Ele espera que eu enjoe para depois não ter de ir comigo", diz Débora.

"Quando estamos nos parques, acordamos cedo e só saímos no fim da tarde. Vamos em todos os brinquedos. É uma volta à infância: aproveito tudo o que não aproveitei. É divertido e também relaxante, dá para esquecer os problemas do dia a dia", afirma Célia, que conheceu o "maravilhoso mundo do Mickey" aos 43 anos.

O fato de poder compensar uma infância com privações financeiras é um dos estímulos dos "adultos que brincam". "Cresci no interior e só ia nos parquinhos em dia de quermesse", conta Célia. O produtor musical Marcello Mansur, o Memê, 34, outro aficionado por "Guerra nas Estrelas", diz que se tornou fã da série quando era adolescente, mas, na época, sua mesada dava apenas para discos.

Agora, Memê tem em seu estúdio uma réplica, de dois metros, de Darth Vader, o vilão, que lhe custou a "bagatela" de US$ 6.000. Para evitar que seus filhos peguem, ele também deixa no estúdio seu "sabre de luz". "Comecei a comprar essas coisas há cerca de quatro anos, quando passei a ir mais aos EUA e a ter mais grana", diz Memê.

Para o psicoterapeuta Ari Rehfeld, é importante que a brincadeira vá além do consumo. "Quando fica apenas na compra, é pobre, porque torna-se uma diversão totalmente passiva, que não exige criatividade", diz.

Além de reviver, com mais recursos, a infância, as brincadeiras adultas são uma forma de esquecer os problemas. Há cinco anos, depois de ter sofrido uma crise de estresse, o vendedor Dib José Zaim, 42, começou a pilotar autorama. "O médico me receitou um hobby, e eu me lembrei que brincava de autorama na infância. Quando estou pilotando, esqueço do trabalho", diz.

Desde que redescobriu essa diversão, Dib pode relaxar, mas precisa ganhar mais dinheiro: ele gasta por mês US$ 300 na manutenção dos carros em miniatura. "Gasto muito mais do que um iniciante, porque treino para participar de competições", explica Dib, que está separado da mulher há quatro anos.

A atriz Mari Alexandre, 25, que tem mais de 20 brinquedos, entre bichos de pelúcia e bonecas, no seu quarto, diz que brincar é o melhor remédio para os momentos de tristeza. "O brinquedo é um companheiro. Às vezes, quando estou chateada, abraço um bichinho ou pego uma boneca e fico penteando o cabelo dela", diz.

O industrial Roberto Santo Liquido, 36, também esquece que é adulto quando está num campo de paintball, uma brincadeira em que os "combatentes" atiram uns nos outros bolinhas de tinta colorida com um revólver de ar comprimido.

Vestidos com roupa camuflada ou macacão colorido e com máscara para proteger os olhos, Roberto e os outros integrantes do seu time, chamado Tubarão, imaginam estar numa guerra. "Eu sempre gostei de filmes de ação. Quando criança, gostava de brincar de bandido e mocinho. Comecei a jogar paintball por curiosidade há nove anos, me envolvi muito e hoje é um esporte para mim", diz Roberto, que joga duas vezes por semana e gasta cerca de R$ 200 por mês com essa diversão.

Casado e com um filho de 4 anos, Roberto diz que a família também se diverte: "Minha mulher sempre assiste meus jogos. Meu filho ainda não joga porque é muito novinho, mas ele adora mexer nos equipamentos".

Quem já sonhou em sair por aí derrotando as forças do mal com seu "sabre de luz" ou há algum tempo pensa em comprar aquela Susie colegial para lembrar dos tempos de menina, deve aproveitar a fase "Guerra nas Estrelas", corre-se menos risco de parecer ridículo. Que a força esteja com você.

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Jornal do Commercio
Recife - 20.06.99
Domingo

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