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O MITO DO SERTÃO
Padre Cícero faz milagre no cinema

por KLEBER MENDONÇA FILHO

Milagre em Juazeiro (Brasil, 1999), o documentário de Wolney Oliveira sobre o mito Padre Cícero Romão Batista, é uma obra enxuta e fascinante. Num misto de linguagem que mistura documento e ficção, são analisados temas fortes como religião, política, história e cultura popular, que aqui também pode ser vista como simplesmente "pop", levando o espectador à reflexão sobre a essência do próprio Brasil, e do seu povo.

Oliveira usou como fio condutor uma série de milagres que teve como protagonista a beata Maria de Araújo, em 1889, na aldeia de "Joaseiro", Sertão do Cariri, Ceará. Durante a missa dominical de 1º de março, a beata, ao receber a hóstia consagrada, mostrou sangramento na boca, fato que se repetiu diversas vezes e imediatamente interpretado como sendo um sinal de que o sangue de Jesus Cristo estava novamente vivo. Teve início uma crença coletiva que praticamente estabeleceu a figura poderosa do Padre Cícero junto ao povo, para o descontentamento da Igreja Católica e o sofrimento de Maria de Araújo.

Na parte documental do filme (filmada num colorido granulado), Juazeiro é apresentada como uma Meca brasileira. Multidões de fiéis cultuam a imagem do Padre Cícero, presente na estátua-monumento (apresentada como "a terceira maior do mundo, depois da Estátua da Liberdade e do Cristo Redentor"), em fachadas de bares, farmácias, sorveterias, pomadas, camisas, estabelecendo este mito religioso como algum tipo de super star pop. Este elemento pop é perfeitamente traduzido por uma adorável seqüência de animação envolvendo mais de 300 fotos compradas num lambe-lambe de Juazeiro.

O filme não tem exatamente uma estrutura documental facilmente identificável pelo espectador, ou seja, não há exatamente uma sintonia fina entre o que está sendo mostrado pela montagem de Severino Dadá e Mair Tavares e o que o espectador espera ver através da fluência do material. Mesmo assim, acompanhamos sempre com enorme interesse depoimentos e imagens fortes captadas em Juazeiro.

A interseção desse material "real" acontece sutilmente, no entanto, com o material "ficcional", perfeitamente fotografado pelo cubano Raul Perez Ureta (Morango e Chocolate). Aqui, José Dumont (O Homem Que Virou Suco) interpreta Padre Cícero com sua habitual expressividade, e divide a maior parte de suas cenas com a novata (em cinema), mas excelente atriz cearense Marta Aurélia, como a beata. Basta olhar para ela que a idéia da fé, ou mesmo do fanatismo religioso, é transmitida com clareza para o espectador.

O filme, portanto, estabelece uma ponte entre passado e presente, e nisso ele traz seus elementos mais fascinantes. São contados causos que traduzem a textura única do povo faminto do nosso país, as possibilidades quase de origem forense para a compreensão do fenômeno (é cogitada até mesmo uma "bactéria do milagre", que faria a gengiva sangrar) e até mesmo uma interpretação psicanalítica da beata, que teria algum tipo de orgasmo de fé ao receber a hóstia das mãos do Padre, ele próprio interpretado pelos entrevistados, e pelo próprio filme, alternadamente, como um santo, um coronel, um empresário, um racista, um mágico ou um assistente social. O filme, provavelmente, nos leva a crer que ele foi tudo isso, numa única embalagem e batina preta.

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Jornal do Commercio
Recife - 20.06.99
Domingo