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ENTREVISTA/WOLNEY OLIVEIRA
A paixão pelo cinema documentário

O cineasta cearense Wolney Oliveira acaba de apresentar Milagre em Juazeiro, seu primeiro filme, para público e imprensa, durante a 9ª edição do Cine Ceará, encerrado esta semana. Misto de documentário e ficção, o filme foi apresentado hors concours e analisa o mito religioso do Padre Cícero a partir dos registros de um milagre, ocorrido em 1889, que teve como personagem principal a beata Maria de Araújo. Ela teria sangrado pela boca repetidas vezes ao receber a hóstia sagrada durante atos de comunhão.

Milagre em Juazeiro, cuja produção consumiu seis anos de trabalho de Oliveira, é produto do pólo de cinema do Estado do Ceará, que tem no próprio Oliveira um dos seus principais articuladores. Ele é diretor da Casa Amarela Eusélio Oliveira, instituição ligada a Universidade Federal do Ceará que fomenta o ensino da linguagem áudio-visual, e organizador do Cine Ceará. Em Fortaleza, concedeu esta entrevista ao Jornal do Commercio.

JORNAL DO COMMERCIO - Qual a sua visão pessoal de Milagre em Juazeiro, agora que ficou pronto?

WOLNEY OLIVEIRA - O filme tem atualmente 83 minutos, mas acho que ainda é possível enxugá-lo um pouco mais, talvez cortando uns seis minutos. A primeira versão tinha três horas e decidi mostrá-la a Ruy Guerra, que estava em Fortaleza dando um curso. Depois que a gente sentou para ver o filme, ele me disse, "quer que eu vá esculhambando rolo por rolo ou tudo de uma vez só?". Ele me mostrou que o filme que eu tinha nas mãos era sobre a beata e sobre o Padre Cícero. Todos os elementos periféricos foram cortados ou atenuados, pois não seria possível abordar tudo. Gosto de mostrar meus trabalhos e pedir opiniões de pessoas que considero. Quanto ao filme em si, existem vários trabalhos que foram feitos sobre Padre Cícero. De ficção, longa metragem, apenas O Patriarca de Juazeiro (1974), de Helder Martins. Alguns curtas do Geraldo Sarno, produzidos na época da Caravana Farkas, também existem. Desde o início, pensei em misturar ficção e documentário. Achei que a melhor forma de passar toda essa loucura que é Juazeiro seria lançar mão da linguagem da ficção, pois considero a linguagem ideal para examinar o passado, que no meu filme, explica o presente. As imagens de arquivo, não apenas de Lampião, mas também do Padre vivo, dão ao filme uma legitimidade, uma prova de que tudo aquilo realmente aconteceu. Há também no filme um flerte com a linguagem de animação, que ajuda a definir de uma forma visual e agradável o aspecto cultural do fenômeno do Padre Cícero. Esta sequência inclusive já foi criticada por algumas pessoas, mas é algo que não irei mexer, pois creio que tem uma função importante no filme.

JC - Qual sua visão pessoal do fenômeno do Padre Cícero?

WO - Padre Cícero foi, durante mais de 30 anos, a personalidade política mais importante do Nordeste. Tinha poder político, contato direto com o presidente da República, foi um nacionalista nato, um dos primeiros brasileiros que reclamou contra a ocupação da Amazônia por estrangeiros. Além disso, vejo a questão da romaria de Juazeiro como uma catarse coletiva, uma espécie de carnaval. Eles não vão para o sambódromo, mas vão para seu próprio carnaval religioso. Há alienação? Claro que há, existe um lado negativo, mas também um lado positivo. O romeiro vai a Juazeiro para orar, chorar, rir, para agradecer sua fé, para consumir, pois a cidade hoje, de pois de 63 anos da morte do Padre, ainda vive em função do mito.

JC - Você sente uma responsabilidade grande em relação à abordagem cinematográfica de um personagem que é considerado sagrado pelo povo?

WO - Eu procurei ser imparcial ao examinar esta história. Não procurei, por exemplo, direcionar o filme e refutar a imagem de santo do Padre Cícero. Nem tampouco existe uma tentativa de denegrir sua imagem. Existem fatos e depoimentos. Estão lá pessoas que o interpretam como racista, oportunista ou coronel, mas há também o lado positivo desta personalidade. Tratei de colocar as várias formas de interpretação do homem e do mito, de uma forma que cada um possa fazer sua leitura. Há um respeito evidente no filme pela fé das pessoas, pois ao longo desses cinco anos, aprendi, muitas vezes emocionado, que a fé é uma maneira de continuar vivo. Isso foi tratado com muita seriedade, mas também com um olhar externo.

JC - Falando de linguagem, como você estruturou um filme que trafega livremente entre a ficção e o documentário?

WO - Desde o início, pensei em misturar ficção e documentário. Achei que a melhor forma de passar toda essa loucura que é Juazeiro seria lançar mão da linguagem da ficção, pois considero a linguagem ideal para examinar o passado, que no meu filme, explica o presente. As imagens de arquivo, não apenas de Lampião, mas também do Padre vivo, dão ao filme uma legitimidade, uma prova de que tudo aquilo realmente aconteceu. Há também no filme um flerte com a linguagem de animação, que ajuda a definir de uma forma visual e agradável o aspecto cultural do fenômeno do Padre Cícero. Esta sequência inclusive já foi criticada por algumas pessoas, mas é algo que não irei mexer, pois creio que tem uma função importante no filme. Sou apaixonado pelo cinema documentário, sou fã do Eduardo Coutinho (diretor de Cabra Marcado Para Morrer) e trabalhei muito com o formato na Escola de Cinema de Cuba, onde me formei em 1990. Portanto, fiz um roteiro fechado de ficção, e abri espaço para os registros atuais, que se completam, e que, na verdade, só ganharam a forma final na moviola, aliás, diria que o roteiro do documentário só aconteceu na moviola. Foram sete meses de edição.

JC - No último Festival de Cannes, Werner Herzog divulgou um manifesto contra o "cinema verité", defendendo uma verdade cinematográfica que pode existir com mais força e dignidade na própria ficção. O que acha disso?

WO - Como o louco genial que Herzog é, ele pode dizer o que bem entender. O Glauber disse que o Golbery era o gênio da raça, não é mesmo? Eu penso o contrário, pois acredito ser bem mais difícil fazer um bom documentário do que uma boa ficção. Se você tem um bom roteiro e bons atores, você já tem meio caminho andado. No documentário, você lida com o inesperado. Eu não sabia, por exemplo, que encontraria em Juazeiro o romeiro Joselito carregando uma cruz com rodinhas na ponta. Acho que o formato documentário está ganhando espaço cada vez mais no Brasil, o Festival Internacional Tudo é Verdade, do Amir Labaki, é uma prova disso, assim como toda essa coisa da TV por assinatura. Na verdade, eu acho que aprendi a dirigir atores fazendo documentários!

JC - Quais são os planos de lançamento para Milagre em Juazeiro?

WO - Eu quero fazer um grande acontecimento nacional envolvendo Milagre em Juazeiro, PAGINA: 8cdc-20.apm FINAL DA COLUNA: 4 FINAL DO LAYOUTque será uma exibição ao ar livre, no dia 31 de outubro, em Juazeiro, após a missa das seis. Porquê 1 de outubro? Porque Dia de Finados é 2 de novembro e é no dia 31 de outubro que a romaria atinge um ápice, uma vez que no próprio Dia de Finados os romeiros já começam a voltar para casa para velar seus mortos. No dia 31, há a maior festa religiosa de Juazeiro, em frente à Igreja Matriz. Minha idéia é exibir o filme para a multidão e chamar toda a mídia nacional no que seria um link para o pré-lançamento do filme. Eu costumo dizer que esta será uma forma de eu devolver ao Padre Cícero, à beata e aos romeiros algo que lhes pertence. Enquanto isso, ainda não tive tempo de conversar sobre distribuição, seja com a RioFilme ou e maneira independente. É claro que deverei enviar meu filme para os Festivais, talvez Brasília, em outubro, que tem o perfil, creio eu, adequado para apreciar Milagre em Juazeiro, assim também como festivais fora, como Sundance e Berlim.

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Jornal do Commercio
Recife - 20.06.99
Domingo