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DIRETOR
O novo ícone do cinema japonês

por LUIZ JOAQUIM
Especial para o JC

Quando se fala em cinema japonês, Akira Kurosawa, seu ícone maior, é logo lembrado. Pois preparem-se, o Japão já tem um novo mestre da sétima arte, e ele está sendo apresentado aos recifenses no Cinema da Fundação.

Hana-Bi - Fogos de Artifício (Hana-Bi, 1997),sétimo filme do diretor, produtor, roteirista e ator Takeshi Kitano, foi o primeiro longa-metragem nipônico a ganhar o Leão de Ouro em Veneza, 47 anos após Rashomon, de Kurosawa.

Hana-Bi em japonês é a combinação das palavras flor e fogo, e talvez não exista melhor título para resumir a disparidade de elementos com a qual Kitano ilustra sua história. Aqui, o próprio Kitano interpreta o introspectivo policial Nishi, que se vê perseguido pela Yakuza, a máfiajaponesa, por conta de uma dívida de dinheiro. Além de acompanhar essa medonha relação entre polícia e bandido, somos apresentados a um outro lado do detetive Nishi. Ao mesmo tempo em que toma conhecimento da doença terminal de sua esposa, recebe a notícia de que seu melhor amigo, Horibe (Ren Osugi) foi baleado numa emboscada preparada pelos mafiosos. Começa, então, a poesia de contrapontos do diretor japonês.

Esforçando-se para passar uma borracha no passado marcado por uma vida ultra-violenta, Nishi procura estar presente nos últimos dias de vida de sua mulher. Simultaneamente, seu amigo, Horibe, procura um sentido para sua existência através da arte e começa a criar quadros que curiosamente retratam o mesmo momento vivido por Nish e sua companheira.

Todo o filme é pontuado por uma estrutura fragmentada e uma narrativa obscura sob a ótica da indecifrável expressão de seu protagonista, o policial Nishi. O esqueleto preparado por Kitano para retratar a viajem espiritual proporcionada por Hana-Bi, exige do espectador uma nova maneira de olhar. O filme reeduca esse olhar. Quando o lacônico Nish toma uma iniciativa para quitar sua dívida com a Yakuza, dar uma rumo à vida do seu amigo e amenizar a situação melancólica de sua esposa, o diretor Kitano dá uma aula de como contar uma boa história sem usar palavras.

Também é sem o uso das palavras como vemos a relação de Nishi e sua mulher. Mesmo com um rosto duro e impenetrável, Kitano consegue mostrar o lado terno e cômico do seu detetive, o que nos levar a refletir, embalados pela encantadora trilha de Joe Hisaishi. Essa capacidade defazer rir, chorar e pensar num intervalo menor que duas horas não é tarefa fácil.Enquanto isso, o personagem de Horibe também nos convida à reflexão com seus quadros - intercalados durante todo o filme - contrastando e dando um ritmo peculiar ao impacto violento proporcionado pelo oficio do rude detetive de Kitano.

Todas as pinturas dispostas no filme são de autoriado próprio Kitano, que já é considerado hoje pela crítica internacional como um artista renascentista. Funcionando como a explosão de fogos de artifício, que corre no céu paratodos os lados, Hana-bi, o filme, atinge a todos que o circundam indiscriminadamente. E da mesma forma que cada braço desse fogo, espalhado pelo céu, tem trajeto e cor diferentes, cada um que for assistir Hana-Bi será atingido por uma poesia diferente, que melhor combine com sua subjetiva idiossincrasia. A sentença final é que ninguém escapa ileso do filme de Kitano. Imperdível.

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Jornal do Commercio
Recife - 20.06.99
Domingo