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POETICIDADE
Torcer o nariz para a cultura de massa?

Por que os intelectuais do "inteiro ambiente" planetário continuam torcendo o nariz para a cultura de massa? Mas, o que existia antes dela, "mass culture" ou "indústria cultural"?

Holderlin, Novalis, Rimbaud, eram eles reconhecidos enquantos vivos? O conformismo burguês, a mediocridade arrogante não reinavam nas letras e nas artes? Antes dos gerentes da grande empresa, dos produtores de cinema, dos burocratas do rádio, não havia os acadêmicos, as personalidades gabaritadas, os salões literários... A velha "alta cultura" tinha horror ao que revolucionava as idéias e as formas. Os criadores se esgotavam sem impor sua obra. Não houve idade de ouro da cultura antes da cultura industrial.

E esta não anuncia a idade de ouro. Em seu movimento, ela traz mais possibilidades que a antiga cultura congelada, mas em sua procura da qualidade média destrói essas possibilidades. Sob outras formas, a luta, entre o conformismo e a criação, o modelo congelado e a invenção, continua.

Devemos, portanto, resistir àquilo que separa, desintegra e distancia, mesmo sabendo que a separação, a desintegração e o distanciamento ganharão a partida. A resistência é o que ajuda essas forças fracas, o que defende o frágil, o perecível, o emergente, o belo, o verdadeiro, a alma... O planeta?

Estaria o "Deus Oculto" se transvestido em o Mal de todos os males através da indústria da cultura? Dos primórdios cinematográficos?

Quando declarei, por volta de 1960, que gostava de western, diante de um areópago de intelectuais de esquerda, em Florença, Lucien Goldmann, indignado, tomou a tribuna para explicar que western era a pior das mistificações capitalistas destinada a adormecer a consciência revolucionária da classe trabalhadora, suscitando com estas lúcidas palavras uma torrente de aplausos. Bons tempos?

Foi a partir de minha experiência que me fascinei pelo fato de Chaplin ou Piaf poderem ser amados por pessoas de todas as classes sociais e de todas as nações, coisa inconcebível para o sociólogo que quer demonstrar que os gostos musicais, literários, etc. são conseqüências exclusivas de categorias sociais, classes e aspectos exteriores.

Há múltiplas formas e deformações de resistir. Através de categorias impermeáveis pode ser uma. Outras: sorrir, rir, fazer piada, brincar, acariciar e abraçar; tudo isso é também resistir. Questão de polaridade? De envolvimento histórico-existencial? De sabedoria além dos cientificismos?

"Entre o polo de onirismo desenfreado e o polo de padronização estereotipada se desenvolve uma grande corrente cultural média onde se atrofiam os impulsos mais inventivos, mas onde se purificam os padrões mais grosseiros. Há um enfraquecimento constante nos Estados Unidos, na Inglaterra, na França, de jornais e revistas de baixo nível em benefício dos de nível médio. Mediocridade no sentido mais exato da palavra, isto é, qualidade do que é médio, e não tanto no sentido do termo tornado pejorativo. As águas baixas sobem e as águas altas descem. "Você não notou que nossos jornalistas ficam sempre melhores e nossos poetas sempre piores"?, põe na boca, de Arnheim, Robert Musil em L'Homme sans Qualités. Efetivamente, os padrões se enchem de talento, mas sufocam o gênio.

Como resistir, se o Brasil fica tão longe daqui? Tão longe/perto? E se o "gênio" for uma grande besteirada, uma perdurante Bestética, uma deliciosa trapaça para iludir multidões? Tudo não passa e muito menos ultrapassa de sincretismo miscigenador? Como filmar Ana em Veneza do João Silvério Trevisan?

No começo do século XX, o poder industrial estendeu-se por todo o Globo Terrestre. A segunda industrialização, que passa a ser a industrialização do espírito, a segunda colonização que passa a dizer respeito à alma progridem no decorrer do século XX.

Os problemas colocados por essa estranha noosfera, que flutua na corrente da civilização, se encontram entre os terceiros problemas que emergem no meio do século XX. Estes passam rapidamente da periferia para o centro das interrogações contemporâneas. Não se deixam reduzir às respostas já prontas. Só podem ser levantadas por um pensamento em movimento. É esse o caso daquilo que pode ser considerado como uma Terceira Cultura, oriunda da imprensa, do cinema, do rádio, da televisão, que surge, desenvolve-se, projeta-se, ao lado das culturas clássicas - religiosas ou humanistas - e nacionais.

Entre o nacional-popular, tão peculiar aos marxismos dos sessentas, e o internacional-popular-pra pular deste fim de século, quantas resistências sobreviverão? Em nome do Pai, da Lei, da Castração? Em nome dos buracos deixados por Freud e revisitados pelo neo-barroco Lacan? Entre Casa Grande e Senzala e Verdade Tropical - duas interpretações do Brasil segundo os paradigmas da família nucleadora e dos gênios inventores da modernidade - quantos abismos performáticos sem nome, sem louvor, sem totalidade, sem pai nem padrasto?

A exemplo do que realizou outro dia nosso ALEX, amigo-cinéfilo-fiel da religião da amizade -, José de Souza Alencar, tentamos, hoje, uma colagem de textos de Edgar Morin. De uma perspectiva sincrônica envolvendo duas obras tão distanciadas temporalmente: O Espírito do tempo (1962) e Meus Demônios, que é deste final de século, seu testamento-testemunho, sua autobiografia da perspectiva de uma fenomenologia histórico-existencial. Coube-nos algumas inserções ou interferências, para não perdermos o belo costume, os maus hábitos, os jogos de sempre, os suspenses de um domingo indecifrável para os amantes irrecuperáveis de um sábado.

No momento em que o planeta se desloca, Terra-Pátria é lançado para afirmar a necessidade de uma consciência planetária...

Edgar Morin par lui-même. JMB - por quem?

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Jornal do Commercio
Recife - 20.06.99
Domingo