LG_jc.gif (3670 bytes)

VIOLÊNCIA IV
Ana Ribeiro perdeu três filhos assassinados

O menino Carlos, de 9 anos, vai logo avisando: nem tire minha foto que eu não morri. Pedido estranho, mas que logo é compreendido. Carlos é o único dos quatro filhos homens da dona de casa Ana Ribeiro dos Santos que continua vivo. Nos últimos sete anos, dona Ana já enterrou três filhos, todos assassinados com menos de 18 anos. Do último, A., de 17, ela guarda dois recortes de jornal: um com a foto do filho morto e outro com a notícia da morte do assassino, também menor de idade. "Eu senti a perda de todos, mas essa foi pior. Ele era um menino muito bom para família. Fazíamos planos de construir uma casa melhor. Até o tijolo ele já tinha comprado", lamenta. Nascida no interior da Paraíba, a dona de casa lembra que, após a morte do primeiro filho, F., 13 anos, ela quis voltar para casa. Fugir da violência da cidade grande. "Não fiz isso e eles terminaram morrendo. Hoje eu me arrependo, mas é tarde demais. Agora não tenho mais coragem de ir embora". Dos filhos perdidos, apenas o de 13 tinha problemas com uso de drogas. Foi assassinado junto com outros cheira-cola, provavelmente por um grupo de extermínio. A fatalidade selou o destino de P., de 15. Num assalto a um bar, o adolescente foi atingido com um tiro na cabeça. A vida do filho de 17 anos foi tirada de forma igualmente revoltante: sem envolvimento com o crime, ele terminou vítima de uma briga de galeras. "Às vezes eu choro muito. Mas fazer o quê? Eles não voltam mais. Só peço a Deus que o que ficou não tenha a mesma sina desgraçada dos outros", desabafa.

________________________________________


Jornal do Commercio
Recife - 20.06.99
Domingo