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SAÚDE O desconhecido mundo dos patologistas por VERONICA ALMEIDA Por trás do alerta sobre as mortes súbitas que aconteceram em Pernambuco nos últimos meses está uma especialidade da medicina ainda pouco conhecida e que desperta pouco interesse nas faculdades. A anatomia patológica, ou simplesmente patologia, fica entre as últimas opções dos mais de 200 médicos que se formam a cada ano no estado. O fato de trabalhar com pacientes mortos - fazer necropsia - é um dos motivos que afastam os pretendentes. Quem segue a carreira, no entanto, descobre o outro lado fascinante da profissão: a capacidade de elucidar mortes que o exame do paciente vivo não conseguiu esclarecer, a contribuição, através da biopsia, para o diagnóstico de pessoas vivas, e o auxílio para novas descobertas da medicina. "A anatomia patológica colocou a medicina na ciência", diz a médica Maria do Carmo Abreu e Lima, presidente da seccional de Pernambuco da Sociedade Brasileira de Patologia. Na verdade, foi através do estudo das estrutura dos órgãos que a medicina passou a compreender melhor a doença e chegar a resultados precisos. Para Maria do Carmo, o número de médicos que seguem a carreira de patologista precisa crescer. "Recentemente recebemos pedidos de profissionais de um estado do Nordeste", conta. "Tive informação de que serviços estão fechando em outro estado por falta de profissionais", diz o diretor do Serviço de Verificação de Óbitos (SVO) de Pernambuco, Luciano Montenegro. Além de ser necessário ao SVO, onde é feita a necropsia de pacientes que tiveram morte natural sem causa definida, o patologista também atua na análise de material retirado do organismo de pacientes vivos através de biopsia. "Eu reconheço a importância da patologia, mas quero lidar com pacientes vivos", justifica Thiago de Carvalho Milet, 20 anos, aluno do quinto período de medicina da Universidade de Pernambuco (UPE). Com o objetivo de ter contatos mais permanentes com seus pacientes e com a história de vida de cada um deles, Thiago deseja seguir a carreira de clínico geral. Para ele, a distância entre os formandos de medicina e a patologia poderia ser menor se no início do curso eles tivessem menos contato com cadáveres. "Nos primeiros anos deveríamos visitar as enfermarias e ambulatórios, acompanhar pacientes e, aos poucos, conhecer a morte, sem choques". Sandra Simon Calado também pretendia ir atrás do lado mais romântico da medicina e, durante o último ano do curso (internato), resolveu optar por pediatria. Ela passou um ano na área, tempo suficiente para despertar um interesse que estava guardado desde os tempos da graduação, quando se empolgou ao examinar lâminas com fragmentos de tecidos humanos numa aula de patologia. Está agora no segundo ano da residência em anatomia patológica da UFPE e não se arrepende. "É uma profissão menos estressante e ideal para quem gosta de estudar, descobrir algo, ter a curiosidade despertada", testemunha. Aos que pensam que trabalhar com necropsia é extremamente desagradável, Sandra ensina: "para mim, choca muito mais trabalhar numa emergência". Ela lembra que a profissão não se restringe ao estudo da morte. Dedica-se também à vida, quando faz diagnóstico de câncer em pacientes vivos e ajuda a evitar novos óbitos ao descobrir porque determinada pessoa morreu. Sandra não critica os colegas, pois sabe que cada um tem sua vocação. Mas entende que o interesse poderia ser maior. Segundo ela, enquanto a disputa em outros programas de residência médica varia de 30 a 50 candidatos por vaga, na patologia varia de oito a dez. Para a patologista Maria do Carmo Abreu e Lima, a rejeição à patologia também pode estar relacionada ao fato de ser uma profissão solitária e à questão salarial. O neuropatologista Roberto Vieira de Melo, coordenador da Residência Médica em Patologia da UFPE, observa que além da rejeição em trabalhar com cadáver, a nova geração de médicos é atraída pela tecnologia, preferindo especialidades como a radiologia, por exemplo. Por mais que a tecnologia avance nos esclarecimento das doenças, o neuropatologista acredita que sempre haverá espaço para a necropsia e a anatomia patológica. "Foi a necropsia que mudou a medicina", lembra. Os patologistas contribuíram ao longo dos séculos para a explicação de muitos problemas que tiraram a saúde da população. Foi o caso da aids, por exemplo, quando identificaram que pessoas jovens estavam morrendo com um câncer raro (o sarcoma de Kaposi). "O estudo da morte pode salvar vidas, traçar o quadro sanitário de uma região", lembra o patologista Horácio Fittipaldi. |
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