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ARQUEOLOGIA
Medo de múmia é coisa de filme

por LORENA MASCARENHAS

A procura de um tesouro perdido, em meio às pirâmides egípcias, um aventureiro valentão desperta, acidentalmente, uma múmia de seu sono milenar. O morto-vivo, reencarnado por um espírito maligno, passa então a atormentar a vida do mocinho. A cena "assustadora", mostrada no filme A Múmia, em cartaz desde sexta-feira nos cinemas do Recife, é um bom argumento para histórias de aventura e terror, mas está longe do simbolismo da mumificação para os egípcios, que dominaram a técnica há cinco mil anos. Para eles, quem fosse mumificado antigiria mais rapidamente a paz espiritual.

Os rituais religiosos de mumificação chegavam, por vezes, a durar semanas ou meses. "A contemplação do corpo era algo importante na religião egípcia", reforça a arqueóloga Gabriela Martin, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). "Até mesmos as pessoas mais pobres economizavam dinheiro para serem mumificadas", conta.

Apesar de estudada há anos, a técnica de mumificação egípcia não foi inteiramente desvendada. Até hoje, estudiosos não sabem afirmar, com exatidão, quais as substâncias químicas utilizadas por essa civilização para conservação dos corpos. Sabe-se, pelo menos, que era feito um corte na barriga do morto, por onde eram retiradas todas as suas vísceras. O local, então, era "recheado" por resinas aromáticas, palha e, às vezes, substâncias obtidas a partir de carvão mineral.

Como o morto costumava ser enterrado junto com seus pertences - objetos como jóias, colares e armas -, o corpo do egípcio era colocado dentro de vários caixões, um dentro do outro. "Isso dificultava a violação das tumbas", diz a arqueóloga. Semelhante às aventuras cinematográficas, onde os aventureiros se deparam com tesouros guardados dentro dos sarcófagos, já havia, naquela época "arrombadores de caixões", de olho nos pertences valiosos dos faraós e príncipes.

Além da mumificação intencional ou embalsamamento, como era praticado pelos egípcios, havia, ainda, o processo de mumificação natural, como o ocorrido com o crânio ao lado, encontrado no Agreste pernambucano. No processo natural, a conservação do corpo acontecia porque os mortos eram enterrados em locais extremamente secos ou frios, inibindo o desenvolvimento de bactérias responsáveis pela putrefação. "A falta de umidade é o que provoca a mumificação do cadáver", assegura o epistemologista e professor da UFPE e da UFRPE Adelson Santos, que estuda esqueletos pré-históricos. "Quando é feito um diagnóstico do corpo mumificado, constatamos que o cadáver apresenta tecidos resistentes e tem pouco peso, devido à acentuada perda de água - em torno de 50% a 70%", revela.

Algumas dessas múmias naturais podem ser encontradas na areia do deserto, em determinadas cavernas, criptas de igreja e até mesmo em regiões do semi-árido nordestino. Em 1991, foi encontrado na fronteira entre a Áustria e Itália, o chamado Homem do Gelo. Era um caçador, com aproximadamente três mil anos, que ainda conservava tatuagens pelo corpo.

Há quatro anos, uma múmia de uma garota de 14 anos foi achada no Peru, em uma montanha de mais de seis mil metros de altura. A Donzela dos Andes, como ficou conhecida, provavelmente foi sacrificada em algum ritual religioso praticada pelos Incas. A garota aparentava ter aproximadamente 500 anos e trazia marcas de pancadas na cabeça. "Muitas crianças e adolescentes eram sacrificados em rituais pois acreditava-se que eles poderiam comunicar-se com os espíritos. Eram considerados mensageiros dos deuses", afirma a arqueóloga Gabriela Martin.

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Jornal do Commercio
Recife - 20.06.99
Domingo