![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
ANIVERSÁRIO XI Conhecimento científico como cultura de massa por JOSÉ MONSERRAT FILHO Quem trabalha com divulgação científica no Brasil recebeu há pouco um grande incentivo. O Prêmio Kalinga, da Unesco, a mais importante distinção internacional na área da popularização da ciência, foi conferido a Ennio Candotti, fundador das revistas Ciência Hoje e da Ciência Hoje das Crianças, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Com base na experiência da Ciência Hoje, Ennio também ajudou a criar a Ciencia Hoy, na Argentina, onde passou quase um ano num esforço para concretizar este projeto. A esperança era de abrir nova e ampla etapa de cooperação entre nossos países na área estratégica da educação científica, com repercussão em toda a América Latina. Seria o Mercosul da Ciência. A idéia antecedeu ao Mercosul econômico, ora torpedeado pela globalização financeiro-especulativa. Felizmente, Ciencia Hoy continua circulando, sobrevivendo ao longo governo Menem, que prima por ignorar a educação, a ciência e a cultura. Mas, infelizmente, o Mercosul da Ciência, como sólido alicerce de uma integração inteligente, ainda é um sonho adiado para o século 21, se ele vier a ser o século do conhecimento, como dizem. Por esses e outros sonhos, realizados ou (ainda) não, Ennio é o terceiro brasileiro a ganhar o Prêmio Kalinga. O primeiro agraciado, em 1974, foi o pioneiro do jornalismo científico no Brasil, José Reis, uma vida inteira dedicada à educação científica, que escreve aos domingos na Folha de S.Paulo. O segundo, em 1982, foi Oswaldo Frota-Pessoa, cientista de renome voltado permanentemente para a educação dos jovens. O Brasil ainda não tem nenhum Prêmio Nobel, mas já tem três Prêmios Kalinga. Isto é mais que um consolo. É um belo sinal de que temos cientistas preocupados com a democratização do conhecimento científico, tarefa central para se forjar um mundo mais humano. Veja o que Ennio disse em Nova Déli, na Índia, agora no dia 7 de abril, ao receber o Prêmio Kalinga: "A responsabilidade maior que temos, acadêmicos e cientistas, é a de educar. Para entender e transformar o mundo. Para torná-lo mais justo e igualitário. Se procuramos o novo é para contá-lo aos nossos alunos, próximos ou distantes, ensinar aos jovens como conservar viva a chama da curiosidade. Construir com eles imagens que nunca antes se tinha visto ou pensado". Mas ele não ficou só em premissas gerais. Aproveitou a ocasião especial para formular propostas concretas, que aproveito para divulgar nesta bonita festa dos 10 anos da Editoria de Ciência/Meio Ambiente do Jornal do Commercio. Para Ennio, pelo menos três questões merecem maior atenção nos debates sobre o papel da divulgação científica na educação de todos: 1) Urge atualizar os textos de ensino e nisto os cientistas podem dar enorme contribuição. Caberia aqui uma campanha da sociedades científicas e de outros setores interessados para convencer e incentivar os cientistas a escreverem para crianças e alunos nas escolas, "a fim de enriquecer o universo de informações, experiências e observações com que eles são educados", ajudando na atualização permanente dos professores e dos livros didáticos; 2) Os computadores entram nas escolas antes dos microscópios: "Não creio que eles possam substituir o papel da experiência, do teste dos modelos e idéias ou o exame dos objetos e documentos, quando se quer entender a natureza ou a sociedade em que vivemos". E mais: "Temo que nas escolas o virtual venha a substituir o real. Sem socar na parede, não se entende o significado da ação e da reação na física". 3) Disseminar centros de ciências humanas e naturais em pequenas e grandes comunidades, com laboratórios interativos onde os jovens possam testar idéias e modelos. (A íntegra do discurso de Ennio Candotti em Nova Déli foi publicada no Jornal da Ciência, da SBPC, nº 410, de 16/4/99). O jornalista José Monserrat Filho é editor do Jornal da Ciência e do JC E-Mail, da SBPC. |
|