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ENTREVISTA/Gilberto Gil A bordo da Onda Azul, Gil navega na ecologia
O músico baiano Gilberto Gil, 56 anos, é uma ambientalista de carteirinha. Filiado ao Partido Verde (PV), ele não pretende se candidatar de novo (já foi vereador em Salvador), mas não desistiu da militância. Há dez anos, o cantor e compositor preside a Fundação Onda Azul, uma ONG que se dedica ao estudo e conservação dos recursos hídricos. Mais articulado com o governo e confiante no futuro do país, ele concedeu a seguinte entrevista ao JC,por telefone, de sua casa na Bahia, dez anos após ter sido o destaque da 1ª edição de "Meio Ambiente", quando veio ao Recife divulgar o recém-criado Movimento Onda Azul. Jornal do Commercio - O movimento Onda Azul se propunha a "fazer onda", através de uma articulação política, científica, técnica e social. O que mudou na idéia original? Gilberto Gil - Basicamente nada. No começo foi difícil conseguir recursos para os projetos. Era uma instituição pequena e eu estava praticamente sozinho. Andei por todo o Brasil em contato com as casas legislativas. Era uma época em que se preparavam as leis orgânicas municipais e estava havendo a inserção do meio ambiente nas leis de uma maneira geral. As dificuldades acabaram sendo maiores do que esperávamos e, quando terminei meu mandato de vereador, o movimento enfraqueceu. Depois passou um tempo de ostracismo e há mais ou menos um ano estamos retomando as atividades. JC - O Onda Azul nasceu em abril de 1989 no núcleo da Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Vereadores de Salvador, onde o senhor exercia seu mandato pelo PMDB. Qual o rumo político-partidário que o movimento tomou?
JC - Por que água? Gil - O meio ambiente é muito amplo, tem vários e vastos aspectos. O Onda Azul resolveu enfocar os mares, oceanos, lagoas, lençóis freáticos e mangues dentro desse universo. Também precisamos de capacitação técnica e isso se torna mais viável quando escolhemos um tema. Contamos com a colaboração de pesquisadores de universidades baianas. JC - De movimento, o Onda Azul passou para organização não-governamental (ONG)? Como foi essa mudança? Gil - Foi uma necessidade resultante da institucionalização. No começo se tratava mais de um movimento e depois decidimos pela fundação. JC - Em plena campanha eleitoral, o senhor na época apoiava a candidatura de Leonel Brizola para a presidência. A vitória de Fernando Collor já se anunciava nas pesquisas e, na sua opinião, o povo estava "escolhendo apressadamente como uma forma de vingança, de protesto". O que mudou na cabeça do eleitorado? Gil - Não só o povo amadureceu como houve uma melhora na economia, em decorrência do controle da inflação. JC - O senhor é cantor, compositor, político e ambientalista. Qual dessas atividades lhe consome mais tempo e qual é a mais prazerosa? Gil - Minha vida artística é uma questão de sobrevivência e também espiritual. É ela que me consome mais tempo e ao mesmo tempo é a mais prazerosa. Contribuir para a preservação ambiental fica em segundo plano, mas nem por isso deixa de ser uma atividade que eu me empenho bastante. JC - Qual sua militância ecológica e política hoje? Pretende se candidatar? Gil - Sou filiado ao PV, mas não pretendo postular mandato de novo. Administrativamente tive oportunidade de assumir um ministério, mas acabou não dando certo. JC - Por que a indicação do seu nome para o Ministério do Meio Ambiente, durante a transição para o segundo mandato do governo Fernando Henrique Cardoso não deu certo? Gil - Meu nome era acompanhando de uma sólida proposta, que representava o pensamento do PV. O governo não quis aceitar a proposta e preferiu colocar no cargo um representante do PMDB, que é José Sarney Filho, que tinha todo o peso do nome e da influência política da família. JC - Ao longo desses dez anos, o que a fundação tem feito pelo meio ambiente no Nordeste? Gil - Temos um projeto para a criação de um parque ecológico nas imediações da hidrelétrica de Xingó. A articulação vem sendo feita com a Chesf e acredito que dentro de um ano o parque estará funcionando. Estamos decidindo se será federal, com a participação da Bahia, Sergipe e Alagoas, ou se será ligado ao governo baiano. O projeto está avaliado em R$ 3 milhões e a Fundação Onda Azul deverá coordenar a implantação. A proposta é desenvolver atividades de ecoturismo, com a exploração das trilhas de Lampião, da vegetação de Caatinga, do cânion e dos sítios arqueológicos. |
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