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CARTA DA EUROPA
Silio Boccanera

Hora do frango

LONDRES - Empresas brasileiras estão diante de duas oportunidades extraordinárias para conquistar mercados no exterior: a crise dos frangos envenenados na Bélgica e o fim da guerra no Kosovo.

A contaminação por dioxina da ração animal na Bélgica levou dezenas de compradores espalhados pelo mundo a cancelar a importação de frangos, ovos, manteiga, leite, queijo e até de porcos daquele país, como precaução contra mercadorias envenenadas.

Se produtores brasileiros de frangos, como a Sadia, forem espertos e rápidos, poderão ocupar rapidamente o espaço deixado pelos belgas e até por outros europeus, vistos com suspeitas de que seus animais também consumiram ração belga contaminada.

Uma outra área com bom potencial para a penetração de empresas brasileiras ágeis é a de engenharia, obras, reconstrução, diante das muitas oportunidades que se apresentam na Iugoslávia, tanto na província de Kosovo quanto na própria Sérvia, que entram agora em fase de reconstrução do que a guerra arrasou ou danificou.

Não é segredo para ninguém que os bombardeios da Otan provocaram destruição maciça de prédios, pontes, estradas, em toda a Iugoslávia. Tudo isso precisa ser refeito, uma tarefa bilionária e de longa duração, com fatias para dezenas, talvez centenas de empresas construtoras estrangeiras que souberem correr atrás. A união Européia estima que as obras vão custar um bilhão de dólares por ano, durante cinco anos, em Kosovo, e outros 30 bilhões de dólares na Sérvia.

Americanos, europeus e asiáticos já estão de olho no prêmio. Os britânicos, por exemplo, há poucos dias promoveram uma reunião na Secretaria (ministério) de Indústria e Comércio com empresas privadas nacionais interessadas nas obras do pós-guerra. O próprio secretário embarcou para Tóquio, com o objetivo de discutir com os japoneses uma iniciativa conjunta de empresas privadas, em busca de contratos de reconstrução em Kosovo.

Os cofres iugoslavos não permitem pagar os bilhões de dólares para obras de recuperação da infra-estrutura destruída pela guerra, mas além de ajuda financeira americana e européia para as obras em Kosovo (com prováveis benefícios para suas próprias empresas), também o Banco Mundial deverá financiar projetos na área, abertos a outros países, e até já organizou uma missão de estudos com o propósito de avaliar as necessidades locais.

Frangos de um lado, pontes de outro, os desafios estão diante das empresas brasileiras. Elas podem demonstrar se têm capacidade de brigar por espaço com suas concorrentes internacionais ou se preferem esperar contratos caindo do céu.

Reações de leitor

Um leitor enviou mensagem querendo saber que tipo de reações recebi de vários pontos do Brasil quando expressei apoio à intervenção militar da Otan contra os sérvios, em defesa dos kosovares albaneses, postura considerada não muito popular. As opiniões variavam; alguns concordavam comigo, outros se opunham, naturalmente. Ficaria frustrado se não houvesse divergência.

Respeito os que discordam apresentando argumentos e fatos, mas há sempre uns destemperados que preferem xingar e levantar acusações ridículas de que escrevo sob manipulação política de algum grupo, sei lá quem, pois cada um escolhe o bicho-papão que mais o assusta. Típico de quem não consegue sustentar argumentos é alegar que há uma conspiração dos que não pensam como eles.

Entendo, os que se opunham à ação militar da Otan argumentando que teria sido melhor insistir em negociações. Mas quem acompanha a crise na área há algum tempo (fui para Zagreb e Lubjana em 1991, quando explodiram os primeiros tiros) sabe que negociações diplomáticas exaustivas se arrastam há anos. Os sérvios, indiferentes, continuaram massacrando e praticando a abominável "limpeza étnica", primeiro na Croácia, depois na Bósnia e, finalmente, em Kosovo. A comunidade internacional criticava, mas não ia além da pressão diplomática, que não interrompia a carnificina.

Outros sustentam que teria sido melhor apelar para a ONU desde o início, em vez de deixar a iniciativa só com a Otan. Seria ideal e chegou a ser feito, tanto que há várias resoluções da ONU exigindo dos sérvios que parassem com a limpeza étnica, mas Belgrado nunca obedeceu.

Quando a pressão aumentou, a Rússia, aliada dos sérvios e inconformada com sua crescente insignificância política internacional, aproveitou repetidamente sua posição permanente no Conselho de Segurança para vetar as iniciativas. Será que o resto do mundo deveria ter deixado os sérvios continuarem a matança, como fizeram, sob as barbas da ONU, na Bósnia?

Convém não esquecer de que um dos maiores massacres dos sérvios, em Srebenica, Bósnia, em julho de 95, ocorreu numa área controlada por tropas da ONU. Os sérvios simplesmente entraram, ignorando os soldados, arrancaram os muçulmanos da aldeia e os executaram em massa. No Tribunal de Haia, que julga crimes de guerra, houve confissões horrendas de soldados sérvios que participaram dos massacres.

A Otan agiu em Kosovo porque ninguém mais o fez ou teria condições militares e econômicas de fazer. Se operou com competência ou como trapalhão, durante o conflito, é outra discussão. Pessoalmente, acho que deviam ter atacado os sérvios muito antes, com força total desde o início e com tropas no solo também.

É fácil apontar as besteiras que a Otan fez, do ponto de vista operacional, desde acertar comboios civis a incluir a TV sérvia como alvo. A um custo considerável, uma parte da comunidade internacional se mobilizou para combater o barbarismo numa área onde ela não tem interesse econômico ou estratégico. Há quem considere isso um abuso; prefiro ver como progresso.

boccanera@fdn.co.uk

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Jornal do Commercio
Recife - 20.06.99
Domingo