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COMPORTAMENTO
Desesperar, jamais

por MARCIA CEZIMBRA
Agência Globo

Depois de 20 anos de trabalho na Companhia do Metrô do Rio, José Luís Veronesi Medina, de 40 anos, foi demitido sumariamente por telegrama, sem maiores explicações. Ficou arrasado, deprimido, sem vontade de fazer nada. Sua mulher, Zeila Campos, de 38 anos, o ajudou a vencer a indignação e hoje Veronesi ganha a vida como um autônomo motorista de táxi.

"Ele está bem com o táxi, mas ainda não aceita aquela demissão. Depois de 20 anos, ser dispensado para que a empresa ponha uma pessoa inexperiente no seu lugar ganhando a metade do seu salário é duro de agüentar. Tento ajudá-lo, mas a gente não deve passar a mão na cabeça a toda hora. Se precisar dar uma bronca, tem que dar. Tenho uma amiga que não conseguiu fazer com que o marido reagisse. Depois de um ano de tentativas, os dois estão se separando".

Para o psicanalista Wilson Chebabi, a mulher de Veronesi agiu de maneira saudável ao não tratá-lo com pena. "O que leva à apatia com a maior freqüência é a autocomiseração. O real é vivido como uma injustiça a alguém tão devotado e tão prestimoso! Aparecem ressentimentos, nostalgias, saudades, revoltas, medo de que a adversidade seja um castigo por crimes que não sabe onde e quando os cometeu. Com todas estas vivências, a auto-estima fica exaurida. Esta angústia é violenta justamente porque a pessoa não aceita que isto aconteça com ela. Mas poderia criar e descobrir novos caminhos. Poderia fundar, por exemplo, um movimento dos sem-emprego, como os sem-terra".

O psicanalista Claudio Rossi, da Associação Brasileira de Psicanálise e autor da pesquisa Identidade, trabalho e desemprego, concorda que o engajamento social seja o primeiro passo para evitar o isolamento. "É o isolamento que leva a pessoa a se desestruturar psicologicamente. Deve-se buscar apoio nos amigos, nos parentes, na família e em atividades sociais, domésticas ou na comunidade".

Para evitar a crise no casamento, Rossi diz que uma sólida parceria ajuda a restabelecer o lado prático e emocional da família. "O desempregado deve participar intensamente da vida da casa e dos filhos. As tarefas domésticas podem funcionar como um escape saudável. Lavar louça, fazer comida, cuidar das crianças ou investir num curso para se reciclar levam a descobertas incríveis, como a redescoberta da afetividade e de si mesmo. E até mesmo de novas escolhas profissionais mais prazerosas", ensina Rossi.

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Jornal do Commercio
Recife - 30.06.99
Domingo