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COMPORTAMENTO II
Como o desempregado pode se livrar da apatia

Quando o desempregado não consegue superar sozinho, ou com o apoio da família, as crises psicológicas da perda do emprego, deve procurar imediatamente ajuda terapêutica. Para o psicanalista Cláudio Rossi, o importante é impedir que a pessoa chegue a uma situação-limite, com sérias conseqüências psíquicas para ela e para toda a família. "Uma coisa é a pessoa perder um emprego. A outra, que pode levar a um desequilíbrio mais sério, é ficar desempregada em toda a sua vida profissional, emocional, familiar, social, sexual".

A tradutora autônoma D.G., por exemplo, reconheceu que estava à beira de um surto psicótico quando, de repente, deixou de conseguir trabalho. Ela chorava durante dias inteiros e sentia que o mundo não a queria mais. "Fui percebendo que estava enlouquecendo, porque a realidade não poderia ser tão trágica como eu a sentia. Procurei um terapeuta e, aos poucos, fui reduzindo os meus pavores. Hoje, estou contratada com carteira assinada, mas assim que me sentir mais segura voltarei à vida de autônoma. Há as desvantagens da instabilidade, mas a liberdade de horários dinheiro algum compensa".

O psicanalista Wilson Chebabi explica que, por trás de sentimentos de sujeição e derrota como o da tradutora, esconde-se uma megalomania, uma fantasia de que nada pode acontecer no mundo sem ser por sua causa, por algum ato ou omissão de sua autoria. O megalômano se sente o centro do universo. "Já a falha real, reconhecida por um sujeito modesto, é oportunidade para aprender. Isto não quer dizer que não traga sofrimento. Mas enfrentar essas provas traz alívio, enquanto a apatia inunda a pessoa de uma sensação de perda do sentido de sua vida. É indispensável aceitar a angústia como uma experiência humana rica que promete frutos futuros ainda desconhecidos".

Para Chebabi, não é apenas o desempregado que sente sua morte decretada. Todos nós descobrimos, em toda perda maior ou menor, que estamos com a morte já decretada, embora sem local nem data definidos. "Mas o megalômano insiste em tentar manter a ilusão de eternidade. Embarca nos seus temores e renega o seu potencial produtivo. Fica de mal com a vida e com os seus talentos, que não lhe garantiram a invulnerabilidade".

As psicanalistas Sandra Muniz, da Associação Brasileira de Psicanálise, e Maria Agelice Kischinhevsky, especializadas em terapia de família - em que boa parte das crises aparece com o desemprego de um dos pais - relacionam três tipos de conflitos causados pelo desemprego. "Já tratamos de famílias cujo chefe desempregado é desvalorizado com freqüência pela esposa diante dos filhos e, assim, não consegue realizar suas potencialidades profissionais. Quando a terapia muda esta dinâmica, ele consegue descobrir alternativas criativas mais gratificantes do que a profissão anterior", comenta Sandra Muniz.

Outro caso comum é a mudança de papéis. A mulher sai para o trabalho enquanto o homem desempregado fica em casa cuidando da casa e dos filhos. Neste caso, a terapia ajuda a redistribuir a importância destes papéis.

No terceiro tipo, a dinâmica de exclusão do desempregado já está cristalizada e ele se isola no alcoolismo e em fobias sociais. O tratamento é individual e precisa da ajuda fundamental da família.

Para o psicanalista Cláudio Rossi, os filhos podem assumir uma função vital de ajudar a alimentar a auto-estima e aprofundar os laços afetivos com o pai ou a mãe desempregados. "Os filhos funcionam nesse momento crítico como um suporte psicológico fundamental para o equilíbrio da família. É muito importante que os filhos não façam cobranças e não reforcem a condição de desempregado com atitudes de tristeza ou de comiseração, autopiedade, nem tentem compensar esta condição se submetendo às pressões impostas pelo desempregado".

Os filhos devem estar atentos, ainda, às alterações de comportamento do desempregado. Tão logo eles percebam alguma alteração de comportamento como a do pai ou do mãe que começa a beber ou ter repetidas atitudes agressivas, é necessário um diálogo franco entre toda a família. "Os filhos podem funcionar como um elo de grande força e ajuda nesta situação", diz o psicanalista. (M.C.)

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Jornal do Commercio
Recife - 30.06.99
Domingo