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ENTREVISTA / Eduardo Campos "O PSB precisa reagir, mas com unidade" O festival de desaforos que envolveu parlamentares do PSB nos últimos dias, pela imprensa - evidenciando ainda mais a fase de crise interna do partido em Pernambuco - é condenado pelo deputado federal Eduardo Campos, o mais votado do Estado em 98. Ele próprio acusado nos bastidores políticos de invasão de bases eleitorais de companheiros durante a campanha, nesta entrevista a Dilze Teixeira e Valentina Pinheiro, da Sucursal do JC em Brasília, rebate as críticas e ironiza os questionamentos feitos por alguns socialistas ao ex-governador Miguel Arraes. Campos defende, ainda, que o partido reaja ao crescimento de adversários - como o PMDB/PFL - procurando uma maior inserção na sociedade, e adverte: "Não será pelos jornais, atacando quem quer que seja, que vamos construir um partido forte". JORNAL DO COMMERCIO - Correligionários hoje criticam o ex-governador Miguel Arraes, que já foi tratado como mito. O que mudou? EDUARDO CAMPOS - Acho que o grande patrimônio que o doutor Arraes tem na vida pública é a coerência, que é reconhecida, inclusive, pelos seus históricos adversários. Para alguns destes críticos o que mudou foi que Arraes deixou de ser governador. JC - Que autocrítica o senhor faz do processo que começou com a derrota nas últimas eleições e culmina com a defecção de alguns quadros do partido? Campos - O partido tem feito o esforço de identificar estes erros. Não se pode reduzir tudo a um erro, nem a culpar pessoas. O Governo é um conjunto, este Governo atuou, foi julgado e nós perdemos. Acho que precisávamos ter discutido mais política e avaliado ao longo do Governo. Talvez as ações administrativas devessem ter sido mais politizadas no sentido da discussão com a sociedade. Quando a poeira se assenta, vai-se discutindo com aqueles que querem construir o partido, vai-se descobrindo as falhas e corrigindo para se acertar amanhã. É lógico, também, que quando se perde os erros são ressaltados diante dos acertos. JC - Que erro pode ser corrigido? Campos - É preciso ter mais unidade, é preciso ter um espaço mais freqüente para discussão dentro do partido. É preciso compreender que enquanto fomos Governo, o partido cresceu em função do poder e, às vezes, até em áreas que não tinham identidade ideológica com o partido. Esta foi uma falha de todos porque ninguém nunca registrou, ao longo de quatro anos de crescimento do partido - desde a campanha de 94 - nenhum protesto sobre a forma como o PSB cresceu. Seja de um presidente, vice, de uma liderança, ou parlamentar do partido. Agora, é natural que se o partido cresceu também com este viés, ao sair do Governo ele encolha. Não há surpresa no que aconteceu no pós-eleição. JC - Com relação às críticas que foram feitas pessoalmente ao senhor, sobretudo, daqueles que questionam a invasão de espaços eleitorais durante a campanha, como o senhor se defende? Campos - Encaro com muita naturalidade. Quando a crítica é feita para construir, a gente senta, discute e pode até admitir erros. Quando é feita pelo adversário que quer apenas lhe derrotar, a gente enfrenta rebatendo com outra crítica. Neste particular há muito ciúme, muita inveja, muito despeito. O bastidor do voto é, talvez, uma das coisas mais feias da política. A própria opinião pública não sabe que, nesta disputa, as divergências são mais para dentro do partido do que para os reais adversários. E isto tira muito o brilho da política. Acho que cumpri o meu papel no partido. Sempre agi como um construtor. Em 94 tive uma votação assemelhada a que tive em 98 (173 mil e 600 votos) e não se viu nenhuma crítica à minha votação. A diferença é que naquelas eleições (94) nós ganhamos o Governo. E olhe a ironia, alguns que me criticaram são exatamente os que se elegeram nas sobras dos meus votos. JC - Qual será o futuro político de Miguel Arraes? Campos - Acho que doutor Arraes é um exemplo de coerência, de fibra e de alguém que se mantém na luta. Acho que a formação ideológica e cultural dele não comporta aposentadoria. Sobretudo porque ele começou a vida lutando contra as desigualdades e nesta etapa da vida, as desigualdades, a fome e a exclusão social aumentam. Nós precisamos da presença de Arraes comandando o PSB. A presença dele na cena política só ofusca aqueles que são incompetentes e que não querem estar ao lado de quem quer construir um País diferente. Do ponto de vista eleitoral, esta é uma decisão que o partido vai tomar junto com ele. O que vejo entre os companheiros do partido é a expectativa de tê-lo também no plano eleitoral ajudando o partido. Claro que se ele decidir de outra forma, vai ter de nossa parte toda compreensão e apoio. JC - O PMDB, PFL e até PSDB têm feito um jogo de sedução junto a socialistas. Qual a estratégia de reação do PSB para não perder espaço? Campos - Acho que o partido tem de estar presente nas lutas da sociedade. Deixar estas discussões que não interessam ao povo, até irrita a população, e estar presente na luta pela moradia, contra a violência, contra FHC e o seu modelo econômico que provoca o desemprego. Esta deve ser a reação. JC - O que o partido pensa fazer para apagar esse incêndio entre os correligionários? Campos - Não se trata de apagar incêndios. Eu compreendi perfeitamente o que foi colocado por nossos companheiros. Não será pelos jornais, atacando Pedro Eurico, Arraes, Ranilson Ramos, Fernando Bezerra ou quem quer que seja, que vamos construir um partido mais forte. Eu sempre tive uma relação muito boa com doutor Arraes porque nunca falei em "off". Sempre disse o que pensava com muita clareza. Com isto ele sempre me respeitou e daí vem minha admiração por ele. Acho que é preciso ter este tipo de postura, mas de maneira respeitosa. É possível divergir de forma respeitosa. JC - Qual a posição do PSB com relação às alianças político-eleitorais? Campos - Acho que está muito cedo para discutir esse assunto. Mas, já que se discute... Sempre que o partido é provocado para esta discussão, em geral antes das eleições, delibera de forma coletiva. Foi assim quando estivemos para receber Ciro Gomes nos nossos quadros. Acho que está claro para o partido e para a frente de oposição que precisamos ampliar ao centro as nossas alianças. JC - O sr. pode ser mais claro? Campos - Se já perdemos três eleições presidenciais, e se perdemos na Capital para uma candidatura de centro-direita e, no Estado, para uma aliança de direita, é porque precisamos buscar apoio no bloco de centro, nos setores que possam se desgarrar e nos apoiar, mantendo os nossos compromissos e os nossos aliados históricos. Não há segredo nisto. Uma forma de derrotar o seu adversário, quando ele tem mais força, é acumular forças e também dividi-lo. |
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