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ABASTECIMENTO
18 bilhões de metros cúbicos de água no subsolo do Moxotó

IBIMIRIM - A solução para o drama da estiagem que maltrata os cerca de 150 mil pernambucanos do Sertão do Moxotó permanece praticamente inexplorada debaixo da terra. Nada menos do que 18 bilhões de metros cúbicos d'água se mantêm intactos no subsolo de uma área que ocupa 6.200 quilômetros quadrados, dos municípios de Inajá e Petrolândia, além de parte de Ibimirim, Manari, Buíque, Tupanatinga e Tacaratu, estendendo-se após o Rio São Francisco, que corta a região, e invadindo o Estado da Bahia. Segundo estimativas da Secretaria Estadual de Recursos Hídricos, a Bacia Sedimentar do Jatobá possui um manancial suficiente para garantir o abastecimento dos moradores da região, além do funcionamento de projetos de irrigação, dentro dos próximos 30 anos.

Só para se ter uma idéia, o volume d'água da Bacia do Jatobá seria suficiente para encher 35 açudes como o de Poço da Cruz, em Ibimirim, com capacidade para armazenar 504 milhões de metros cúbicos e hoje em pré-colapso, ou mesmo para encher 55 vezes a Barragem do Jucazinho, em Surubim, projetada para armazenar 327 milhões de metros cúbicos, que abasteceriam 13 municípios do agreste setentrional, entre eles Caruaru. Este volume seria suficiente também para encher pelo menos 105 vezes a Barragem de Tapacurá, (170 milhões de metros cúbicos), em São Lourenço da Mata, responsável pelo abastecimento do Recife.

O fato é que todo esse potencial até agora vem sendo pouco explorado. Nos sítios Frutuoso, Brejo do Pioré e Trancado, na zona rural de Ibimirim, até agora foram perfurados apenas 13 poços, sendo nove em propriedades particulares. A vazão de cada poço varia de acordo com a sua profundidade e com a potência de cada motobomba instalada. Num cenário típico de clima semi-árido, a existência da água em abundância vinda do subsolo chama a atenção. Só dois poços do Sítio Frutuoso, perfurados há três anos pela Companhia de Pesquisas de Recursos Minerais (CPRM) - órgão pertencente ao Ministério das Minas e Energia - são capazes de dar em média 120 metros cúbicos de água por hora. Ambos têm profundidade média de 700 metros.

Outros municípios, como Arcoverde e Sertânia, com população total estimada em 90 mil habitantes, vêem na bacia do Jatobá a salvação para evitar o colapso no fornecimento d'água, previsto para o próximo mês de agosto. As duas cidades resolveram instalar na última semana uma comissão especial suprapartidária para conseguir junto ao Governo do Estado a construção da Adutora do Jatobá. Cerca de 100 quilômetros de tubulação seriam suficientes para levar água dos poços perfurados no Sítio Frutuoso para as duas cidades. "Essa obra será de fundamental importância para esses municípios. Estudos indicam que a bacia garantirá o fornecimento d'água pelo menos nos próximos 30 anos", explica Rosa Barros, prefeita de Arcoverde.

RECURSO - "Apesar dos poços no sítio Frutuoso terem sido perfurados há três anos pela CPRM, responsável pela descoberta da bacia sedimentar, a maioria dos moradores da localidade até agora não conseguiu aproveitar o potencial de água disponível. É o caso da família do agricultor Dalvino Bezerra de Moura, 44, oito filhos. Apesar de morar a menos de 50 metros de um dos poços, até agora só utilizou a água para o banho da família e o preparo das refeições. "Desde que começou a jorrar nunca mais parou, mas seria preciso que o governo desse recurso para a compra dos canos, pois seria bastante penoso carregar a água do poço para a irrigação", sugeriu.

"Seu" Dalvino e outros agricultores da comunidade passam o dia de braços cruzados à espera de empréstimo que garanta a compra de uma motobomba. Eles reconhecem que a água melhorou a rotina diária, pois antes tinham que caminhar até três quilômetros para conseguir um pouco d'água. A menos de três quilômetros do Sítio Frutuoso, a Associação Rural do Trocado implantou um sistema de abastecimento que garante água canalizada para dez, dos doze moradores que aceitaram participar do projeto. Além disso, compraram uma bomba e construíram uma cisterna com capacidade para armazenar 56 mil litros d'água, que recebe a vazão de 25 mil litros por hora produzida pelo poço de 133 metros perfurado no local.

Os técnicos temem, no entanto, pelo uso descontrolado da água da Bacia do Jatobá. "É preciso se ter em mente que a bacia não deve ser usada como única fonte de abastecimento das cidades da região, e sim como um reforço no abastecimento, pois na medida em que sua água é utilizada, é preciso repor a perda, o que não vem acontecendo pela estiagem que atinge a região", advertiu José Carlos da Silva, chefe do setor de hidrogeologia da CPRM.

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Jornal do Commercio
Recife - 20.06.99
Domingo