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CINEMA Os bichos estão soltos nas férias por KLEBER MENDONÇA FILHO Na reta final das férias escolares, três lançamentos direcionados ao público infanto-juvenil chegam amanhã ao competitivo mercado dos multiplexes que expulsa, a partir de hoje, Uma Aventura do Zico, lançado na última sexta-feira e já um fracasso sacramentado. O pacote traz Cinderelas e sapatinhos de cristal, um porquinho e um gorila. A melhor opção do pacote é Babe - O Porquinho Atrapalhado Na Cidade (Babe - Pig in the City, EUA/Austrália, 1998), de George Miller (dos adultos Mad Max e Bruxas de Eastwick), que fracassou misteriosamente nos cinemas dos EUA. O problema será convencer adultos acompanhados de adultos a entrar num filme sobre um porquinho que fala, especialmente porque a UIP decidiu trazer para o Recife apenas cópias dubladas, cujas últimas sessões têm início às 18 horas. Uma pena, pois o filme de Miller parece, vez por outra, querer sair do reino infantil com vôos de ação e imaginação que enchem os olhos de quem já deixou a adolescência. Esta é a segunda parte do excelente Babe (1995), que se passava numa fazenda e mostrava, com óbvia influência de George Orwell e seu livro Revolução dos Bichos, as relações entre animais e o surgimento de um pequeno líder, Babe, um porquinho que valoriza o diálogo e a compreensão rumo ao seu sonho de tornar-se um cão pastor! Como não poderia deixar de ser, esta segunda parte comete o pecado mais óbvio de uma continuação para um filme pequeno e bem sucedido. Tudo aqui é maior, sem a atmosfera controlada de isolamento do primeiro filme. Mesmo assim, é uma aventura bem dirigida e executada por Miller, excelente diretor que tem trabalhado pouco (seu último filme foi O Óleo de Lorenzo, de 1992). Miller precisa pegar projetos de maior "respeito" pois é um dos diretores que sabe muito bem como manejar uma câmera. Desta vez, o porquinho é levado para uma feira na cidade grande (mistura interessante de Paris, Nova York e Sidney) pelas mãos da Sra. Hogget. Na cidade, envolve-se com uma fauna urbana de ratos, cães, gatos (perfeitamente captados na essência) e macacos integrantes de um espetáculo estilo Cirque du Soleil, onde o dono é Mickey Rooney. Os ratinhos cantores do primeiro filme vão clandestinos na bagagem e o pato (que sempre quis roubar o trabalho do galo, nas manhãs) tenta seguir o avião. Este segundo filme nem precisava ser tão bom, mas é. Miller manteve a personalidade de Babe e encheu a trama de personagens/animais interessantes e, em alguns casos, bem mais cativantes que a grande oferta de humanos do cinema atual. Repete-se aqui aquela sensação do primeiro filme, em que o espectador acreditava estar de volta à infância lendo alguma história infantil de qualidade. Valores e mensagens são passados com a mesma naturalidade empregada nos efeitos especiais. Como não negar a qualidade de cenas como a do cachorro que vê o seu destino final, após a vida? A cena lembra a de Robin Williams, em Amor Além da Vida, mas é melhor aqui. O talento de Miller com a câmera ganha ainda mais destaque numa elaborada (e assustadora) perseguição animal (Mad Max?), onde os efeitos especiais são usados a favor da história, ao ajudar traçar o perfil do personagem principal, capaz de ajudar o seu pior inimigo. Vale ressaltar que são poucos os filmes infantis que resultam em trabalhos deliciosos, bem feitos e que não tratam o espectador (adulto ou infantil) como debilóide. BANANA - Outro animal à solta na cidade é Poderoso Joe (EUA, 1998), de Ron Underwood (A Maldição dos Vermes Malditos), sobre um gorila maior que o normal, mas bem menor que King Kong. Diferente de Babe, o filme não busca desenvolver idéias relacionadas à natureza dos bichos ou às emoções humanas refletidas em animais, mas procura promover uma vitrine para efeitos especias que tentam amarrar este produto de aventura. O filme está indo razoavelmente bem nos cinemas americanos (estreou no Natal). O Joe do título é tirado do seu habitat e levado para a civilização, contrariando as regras desse tipo de filme ("não mexa com a natureza"). Mas a ganância de uns (Joe serviria como alavanca para captação de recursos de uma fundação) e a curiosidade de outros conspiram para que o inevitável aconteça: Joe é solto acidentalmente nas ruas de Los Angeles, resultando num quebra-quebra perfeitamente orquestrado pelos efeitos especiais, dirigidos pelo mestre Rick Baker (Oscar por Lobisomem Americano em Londres). O filme oferece uma interessante contribuição ao cinema de gorila(!), aperfeiçoando de uma vez por todas o velho truque de um ator usar um macacão peludo e gritar "UNGA, UNGA". Joe parece real em quase todas as cenas, o que já é uma grande vitória. Destaque especial vai para as cenas de ação, semelhantes em estilo aos filmes Jurassic Park. Tentando minimizar os prejuízos materiais do gorila estão Bill Paxton (Titanic) e Charlize Theron (que não poderia estar mais diferente no novo filme de Woody Allen, Celebrity), como a cientista que, dependendo da sua leitura nas entrelinhas, pode ou não estar envolvida de maneira amorosa com Joe... Divertimento OK com o carimbo da Disney, que revoga leis da gravidade e do homem durante toda a ação. Cópias legendadas na última sessão. MADRASTA - O cor-de-rosa choque Para Sempre Cinderela (Ever After: A Cinderella Story, EUA, 1998), de Andy Tennant, é a chance que namoradas e esposas estavam esperando para vingarem-se dos companheiros que as arrastaram para sessões indigestas de Lenda Urbana, O Principal Suspeito e Halloween H20. Neste final de semana, o público feminino terá poder de barganha com esta luxuosa garapa de açúcar, servida em taça de champagne. Drew Barrymore (a ex-garotinha de E.T.) é Danielle, uma orfã de pai que passa o resto da infância e adolescência sob os péssimos cuidados da madrasta Rodmilla (Anjelica Houston, perfeita). Transformada em empregada doméstica por Rodmilla e suas duas "irmãs", especialmente Marguerite (Megan Dodds), uma loira má e invejosa, Danielle é menina despachada, moderna, politizada e dona do seu nariz, embora tudo isso seja pintado com as cores de uma nova heroína Disney, e não da Martha Suplicy. Além da madrasta, ela tem que lutar contra convenções da realeza, que não permitem o amor entre uma plebéia e o príncipe Henry (Douglas Scott) que, junto da sua amada, parece levemente em desvantagem no quesito cérebro, algo que príncipes de contos de fadas nunca realmente precisaram. Basta beleza, elegância e o domínio de técnicas de equitação, quesitos que Henry tira de letra. Para Sempre Cinderela é produção luxuosa, competente, que preocupa-se em estabelecer um padrão de elegância ao utilizar Jeanne Moreau (a paixão dos amigos Jules e Jim, de Truffaut) como narradora, chamando, na abertura, os Irmãos Grim para corrigir lapsos na versão que eles escreveram da história de Cinderela. Além dos Grim, Leonardo Da Vinci também é convocado para dar ao filme o ar da sua presença pop. A participação de Da Vinci é um dos elementos que tornam o filme engraçado, aqui e ali. Barrymore, longe de ser uma princesa tradicional, segura bem o filme (exceto nas suas peculiares cenas de choro) com uma tentativa de sotaque britânico, embora a história se passe na França. Enfim, Para Sempre Cinderela é aquele tipo de produto que diverte, acaba e evapora no ar, depois da sessão. Ou seja, pode ser exatamente o tipo de coisa que você pode estar precisando. |
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