![]() |
![]() |
![]() |
![]() |
Cercando a fera O governo tem na manga do colete um choque tarifário para neutralizar o choque cambial no sistema de preços em liberdade. A exposição de motivos é do presidente Fernando Henrique Cardoso: "É só o pessoal brincar de remarcar preço de importados e eu baixo as tarifas de importação. Isso pode ser feito por decreto e o decreto é meu". O ministro Celso Lafer adianta que a redução do Imposto de Importação será seletiva, produto por produto. A seleção começa pela análise dos impactos da desvalorização cambial em três níveis: 1) os dos importados de consumo final; 2) os produtos nacionais com matérias-primas importadas; 3) os produtos nacionais com componentes importados (automóveis ou dos eletrônicos). O governo não se preocupa com os preços de empresas endividadas em dólares. Para o setor produtivo, os juros lá fora são quatro vezes menores que os juros internos. O economista Cláudio Considera, secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, diz que passou a fazer hora extra, mas tem como remota a ameaça de uma reindexação geral da economia. Ou seja: o aumento dos preços de carros importados não pode remarcar alimentos em Porto Alegre nem aluguéis em Belém. Pelo sim, pelo não, economistas da CNI arriscam um palpite abrasivo: se o ajuste cambial contentar-se com 25% de desvalorização média do real, este ano, a inflação anual saltará para 10%. A menos que o impacto inflacionário do "câmbio de equilíbrio" venha a ser esterilizado pela redução orquestrada dos juros para produção, giro e consumo. O que depende, tanto do ajuste cambial, já emplacado, como do ajuste fiscal, ainda enrolado. Depende, igualmente, da contenção dos preços administrados pelo próprio governo. Entre outros, combustíveis e eletricidade. Há quem aponte o risco latente da "cultura inflacionária" ainda presente na memória de agentes econômicos. Especialmente daquele que prosperaram a bordo de três décadas de inflação indexada. Não poucos deles ousando "dolarizar" as respectivas tabelas de fábrica ou estoques de loja. O presidente da Fiesp, Horário Lafer Piva, diz que "dolarizar preços ou contratos é brincar com filhote de cascavel disfarçado de minhoca". Seria o começo do fim do real. O economista Affonso Celso Pastore, ex-presidente do Banco Central, não endossa a tese escapista da "cultura inflacionária". Diz ele: "Inflação é processo econômico e não fenômeno cultural. Fora ela um fenômeno cultural, o Brasil não teria acabado com a inflação, da noite para o dia, com uma simples bruxaria monetária chamada URV. Lembram-se disso?" Oposição 1 Governadores ditos de oposição exigem em passeata e renegociação da dívida já renegociada. A mesma oposição pela oposição sabota o ajuste fiscal da União. E desconversa, claro, sobre o ajuste fiscal nos respectivos Estados. Oposição 2 Amaciar dívidas estaduais já amaciadas, sem a contrapartida de ajustes fiscais leoninos nos Estados, produziria a gratificação do calote. E mergulharia o trato da coisa pública, em todos os níveis, no lodaçal de um "moral hazard" catastrófico. Maturação 1 O ministro Pedro Malan admite que o "ponto de equilíbrio" do campo em liberdade reclama algumas semanas de busca. De preferência, sem sobressalto de natureza pública. Não se faz ajuste cambial de mercado da noite para o dia. Maturação 2 A recarga dos juros faz parte da maturação do ajuste cambial. Com prometa de redução "significativa" das taxas a partir do Carnaval. |
|