LG_jc.gif (3670 bytes)

CANTORES DE VIENA II
Corais de Pernambuco não têm a mesma sorte

Não poderia haver momento mais propício à chegada dos Meninos Cantores de Viena. Único estado do Norte-Nordeste a recebê-los, Pernambuco, que já foi o 3º pólo de corais do Brasil, vive uma situação em que os festivais de canto se resumem em escassas iniciativas, quase sempre patrocinadas por entidades privadas. Em se tratando de coros infantis, a situação é ainda mais complicada. Ao contrário dos bem nutridos garotos-de-bochechas-rosadas da Áustria, os meninos e meninas cantores daqui são em quase sua maioria crianças de periferia e, por isso, não dispõem de recursos para participar assiduamente dos ensaios.

No entanto, o maior problema dos coros infantis em Pernambuco não é a origem humilde das crianças. Provavelmente, muitos dos meninos de Viena também não vêm de famílias de altas rendas. Na lista de pré-requisitos para que os garotos entrem no coral estão: 1) capacidade de repetir uma melodia tocada ao piano; 2) afinação; 3) capacidade auditiva; e 4) timbre e beleza da voz. Em nenhum desses itens consta qualquer sombra de cifrões. A diferença entre os Meninos Cantores de Viena e as crianças cantoras de Pernambuco se faz por um conjunto de palavras: incentivo governamental.

"Na década de 70 até os anos 80 havia festivais periódicos de corais. Isso não existe mais", lembra João Emiliano de Araújo, o mais antigo regente de corais infantis em Pernambuco. Depois de ter completado 50 anos vigiando e guiando as vozes de crianças vinculadas a colégios, igrejas e comunidades carentes, João Emiliano gasta hoje boa parte de seu salário de professor aposentado com os custos do coral De Angelis, criado há seis anos. "Já aconteceu das crianças serem chamadas para festivais e não poder se apresentar porque não havia dinheiro para condução", afirma o músico.

A Banda Sinfônica do Agreste, durante muito tempo conhecida como "os meninos de São Caetano" trabalha hoje com cerca de 80 crianças carentes da cidade no trabalho de canto. Os meios para sustentar o grupo provém em grande parte da renda arrecadada pelos CD's vendidos da banda e os professores da escola são remunerados por aulas particulares. "Existe um projeto pronto na prefeitura para manter a banda com R$ 1.300 mensais. Mas isso ainda não saiu do papel", queixa-se Creuza Mendonça, integrante da Banda Sinfônica que começou ainda adolescente a participar do grupo e continua trabalhando nele.

-----------------------------------------------------------------------


Jornal do Commercio
Recife - 21.09.99
Terça-feira