ENTREVISTA / Martin Schebesta
Tradição e seriedade
acima de tudoA
convivência diária de cerca de 80 garotos em um mesmo
lugar, seria mais do que suficiente para provocar
turbulências típicas da idade. Mas, quando este lugar
é o Palácio Augarten, a situação é bem diferente. Os
Meninos Cantores de Viena têm responsabilidade de super
stars e obrigações de quem não tem direito a
estrelismos. Para controlar essa pólvora de egos
inflados (pelos familiares e pela própria fama do grupo)
é necessário um pulso de ferro no comando da
"tropa". Martin Schebesta é esse nome. Regente
de outros corais e de apresentações como o famoso Jesus
Christ Superstar, em Viena, ele é hoje um dos nomes de
peso em Augarten, onde também assume um dos postos da
diretoria do grupo.
JORNAL DO COMMERCIO - Algo mudou na
estrutura do coral nesses cinco séculos de existência?
MARTIN SCHEBESTA - A idéia é
basicamente a mesma. Em termos de estrutura coral de
vozes, os meninos são divididos em sopranos e altos,
primeiros e segundos sopranos, e primeiros e segundos
altos. O que modificou foi o repertório, claro, embora
ainda mantenhamos muito do repertório clássico,
incorporamos canções mais modernas e até populares,
desde que tenham um cunho folclórico.
JC - Qual a filosofia de um grupo
como os Meninos Cantores de Viena, que tem a palavra
tradição como sua característica mais forte?
MT - Na verdade, embora saibamos
o que representa estar no grupo e o que representa o
nome, não pensamos nisso no nosso dia-a-dia. O que vejo
são crianças normais, alegres e que gostam de cantar,
por isso freqüentam essa escola onde, além das aulas
normais, recebem uma grande formação musical e cantam
em um coral. Mas tudo é levado muito à sério, essa é
uma característica do nosso povo.
JC - O Senhor já trabalhou como
regente em outros corais. Qual a diferença básica entre
eles e a estrutura que existe no coral dos meninos de
Viena?
MT - Em termos de preparação
coral não existe muita diferença. Os Meninos Cantores
têm uma característica, no entanto, que ajuda muito na
hora da preparação. Por terem muita convivência, são
muito entrosados. É diferente de um coral que se reúne
duas ou três vezes por semana para ensaiar. Eles
realmente conseguem atuar como um instrumento único.
JC - Como regente e líder de um
grupo que tem renome em todo o mundo, qual a sua
percepção do comportamento desses garotos que tem, no
máximo, quatro ou cinco anos de estrelato e que depois
somem muitas vezes no esquecimento?
MT - Não tenho notado traumas
por causa disso. Como, na verdade, eles vêm para fazer o
primeiro grau aqui, e não temos o segundo grau, é uma
coisa natural que tenham que passar para outra escola
para continuar os estudos. Isso já é uma delimitação
natural.
JC - O que acontece com a maioria
desses meninos depois que encerram sua carreira no coral?
MT - Acho que a maioria gosta de
estudar música, temos muitos corais pela Áustria, sei
que muitos acabam cantando em outros corais também e
seguem carreira de músicos. O mais importante a meu ver
não é a carreira que fazem durante três ou quatro anos
no coral, mas sim a formação que recebem que poderão
usar para seguir uma carreira ou simplesmente como hobby.
JC - Existe um espaço ainda não
explorado no mercado fonográfico para o canto lírico?
Sempre existem novos espaços, mas acho
que há muitos lançamentos de canto lírico, muito mais
do que canto coral, inclusive. Nós mesmos já gravamos
muito, terminamos um CD agora comemorativo dos 500 anos
do grupo, em que cantamos várias músicas antigas e até
Garota de Ipanema, de Vinícius de Moraes, entrou na
lista.
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