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ARTES PLÁSTICAS
Uma ave rara no roteiro das exposições

por FLÁVIA DE GUSMÃO

Ismael Caldas é assim: a língua rápida, o pincel cauteloso. Ou, por outra, o pincel não pára, mas sua disposição em mostrar ao público o que vem fazendo não acompanha a produção. Sua última exposição individual aconteceu em 1994 (participou de uma coletiva no mesmo ano, no Museu do Estado), na extinta Artespaço, e só agora volta a se mostrar. Hoje, a partir das 20 horas, ele apresenta os 12 quadros que compõem a série Inamovível Mobiliário, no Museu da Abolição, quebrando um jejum lamentado por muitos e desdenhado por poucos.

"Hoje em dia não tenho pressa para nada, trabalho devagar e aposto na preguiça", diz com uma cara que parece ter sido pintada em um dos seus quadros - impassível. E vai além: "Pernambuco está ficando `cadoquizado'", diz, referindo-se a um novo tipo de `jesuíta', o secretário de Turismo, Carlos Eduardo Pereira, o Cadoca. Esta, segundo Ismael, seria uma religião baseada no sucesso rápido de tudo o que pode ser consumido, sem critério, pela massa. "Hoje tem mais pintor na praça do que camelô e a maioria sem qualquer formação para fazer o que faz", diz Ismael, o inclemente.

DEIXA QUE FALEM - No nome Inamovível Mobiliário, escolhido pelo pintor para dar título à mostra, está contida toda a sua proposta, embora com Ismael nada seja tão imediatamente esclarecido - decifra-me ou devoro-te poderia ser o seu slogan. Do jargão jurídico, feito, segundo ele, para manter os leigos afastados de um conteúdo relativamente simples, foi sacada a primeira palavra, significando algo que não poder ser retirado do lugar. Já o segundo termo tem mais a ver com herança e legado do que com móveis, como pode parecer à primeira leitura.

Por trás dos dois está uma homenagem seca - como é do seu estilo-, mas comovente, como só podem ser as idéias de quem acredita em alguns purismos e tem o cacoete de dizer sempre a verdade, ao menos a sua. A memória de Vicente do Rego Monteiro foi a sua grande fonte de inspiração e, de resto, o seu legado pessoal. A ligação estabelecida com o falecido pintor pernambucano - mais astral que propriamente corporal, uma vez que VRM já era idoso quando Ismael o conheceu - foi isolada em seus quadros através do objetivo de recriar a atmosfera, a paleta (seleção de cores) e a composição que inclui poucos elementos que sugerem, mas não explicam.

No ano em que se comemora o centésimo aniversário de Vicente do Rego Monteiro, Ismael acusa Pernambuco de ser cruel com a memória de seus filhos e, em especial, de Vicente, que "sempre foi desdenhado". A reverência à memória do amigo foi feita em tinta acrílica sobre madeira e tela - desde os anos 60 que Ismael não toca em tinta a óleo, que, segundo ele, o estava intoxicando -, em 12 quadros de 90cm x 60cm e 50cm x 70cm. Ismael, contudo, evita comparações com o objeto de sua admiração: "Não há como comparar o meu trabalho com o de Vicente. Ele era, além de pintor, poeta e escritor, um homem múltiplo. Eu só sei pintar". A semelhança entre os dois, segundo o próprio Ismael, talvez esteja no gosto por formas limpas, sem rebuscamento. "O artista deve sempre seguir em frente, sem se preocupar com o que pensam dele", resume.

Museu da Abolição - Rua Benfica, 1.150, Madalena

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Jornal do Commercio
Recife - 21.09.99
Terça-feira