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Apesar de tudo, crianças As cenas dramáticas vão ficar gravadas por muito tempo na memória dos que pensam o Brasil por inteiro, como uma nação que procura encontrar sua vocação no respeito à dignidade humana. As cenas foram apenas detalhes da rebelião dos jovens confinados na Febem de São Paulo: uma tomada flagra adolescentes com os rostos colados na janela de um camburão e havia expressões de desespero - deles e dos pais que corriam atrás do carro. Outra tomada mostra jovens seminus encurralados em um grande pátio, quase um daqueles quadros clássicos dos campos de concentração. O que isso tudo nos diz é muito difícil de apreender apenas pelo impacto emocional. Mas é certo que o incidente recente vai muito além de uma rebelião circunstancial para se impor como uma grave doença social, que precisa de tratamento radical imediato. O Brasil não pode conviver com tragédias mostrando uma infância violenta e violentada. Importa até saber que ali estavam alguns perigosos marginais, precocemente entregues à mais brutal criminalidade, porque essa constatação faz aumentar a culpa nacional que pesa sobre o grave problema da infância e da adolescência. O episódio brutal exige de todos os brasileiros o compromisso de pensar em saídas, para que ele jamais se repita. É muito pouco imaginar que a solução esteja na construção de mais unidades ou descentralização da Febem, como se anuncia em São Paulo. Essas são decorrências, quando se exige atacar a fonte, a raiz de tudo isso, o ponto de partida, os alimentos sociais que nutrem a criminalidade, que transformam crianças em bandidos. Não se trata apenas de equipamentos ou pessoal disponíveis. Trata-se de transformar a realidade. Se não dá mais para conviver com cenas como as que foram documentadas na rebelião das crianças infratoras em São Paulo, cabe perguntar: O que fazer? A resposta certamente não é simples mas pode ser deduzida de qualquer programa de candidatos majoritários nas últimas décadas. É só pesquisar e lá estarão as manifestações generosas de intenções, apontando para o cumprimento do dever legal e humanitário de dar às crianças a atenção especial que todas merecem. Pena que a farta literatura eleitoral não se concretize. Há mais e mais crianças no Brasil - como aquelas da Febem de São Paulo - excluídas de um projeto nacional de grandeza. E como são muitas e cresce seu número, pesa sobre a nação o estigma de um futuro mais sombrio ainda. Se meninos de hoje, execrados, detidos, humilhados e ofendidos, formados na violência e muito cedo violentos, não têm nenhum esperança de mudar seu presente, qual futuro poderemos imaginar? O drama de São Paulo está presente e seu agravamento é latente em todas as grandes cidades. É inimaginável que haja um só brasileiro que de alguma forma não se sensibilize com esse drama. Mesmo quando se encara o jovem como um marginal sem futuro e até se radicaliza na forma de confrontá-lo, até assim há uma postura crítica que deve ser levada a um grande foro de discussão, onde certamente prevalecerá o bom senso que aponta para um fato elementar: apesar de tudo, são crianças. E porque são crianças, a elas devemos o cumprimento do dever constitucional, se não for suficiente invocar as crenças religiosas ou os valores de família. Essa dívida crescente deve ser resgatada a partir de nossas ruas, aqui mesmo no Recife, onde meninos e meninas mal saem do aleitamento materno - raro, pela ignorância e subnutrição das mães - e já disputam espaços de mendicância nos semáforos, drogam-se com cola e dormem ao relento o sono dos que não têm sonhos, só pesadelos. É dever de cidadania partilhar esses pesadelos ou, de outra forma, estaremos nos curvando a uma realidade perversa que divide ainda mais a sociedade, que cria mais exclusões, que faz de uma parte bandidos e, de outra, refém do medo. |
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