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ILHA GRANDE V Ruínas contam capítulos de uma história valiosa Quem diria que, em plena Mata Atlântica, ao lado de paradisíacas praias que personalizam Ilha Grande, haveria espaço para algumas poucas ruínas, porém, de relevante valor histórico. Eis mais uma nuance do famoso santuário ecológico, para deleite dos turistas que aportam na Vila de Abraão em busca de aventura e do desconhecido. Localizada a um quilômetro do vilarejo, as ruínas do Lazareto intrigam os forasteiros, pois poucos desembarcam na ilha informados de que ali, num passado pouco glorioso, eram deixados viajantes portadores de cólera e de outras doenças epidêmicas contraídas nos navios. Na verdade, o Lazareto funcionava como uma espécie de hospital para estrangeiros e foi construído por ordem do imperador Dom Pedro II, um dos ilustres visitantes da ilha. Aliás, foi lá que o monarca fez sua última parada em solo brasileiro antes de seguir para o exílio, em 1889, com a proclamação da República. Ironicamente, a obra, inaugurada em 1891, contribuiu para o desenvolvimento da Vila de Abraão, pois ali aportaram milhares de embarcações. O Lazareto foi desativado em 1913, funcionando, posteriormente, como penitenciária, sendo demolido em 1954, ato considerado na época "um crime contra o patrimônio cultural". Hoje, resta muito pouco daquele que já foi um dos maiores hospitais de doenças infectocontagiosas do Brasil. As ruínas não passam de alguns paredões em pedra e meia dúzia de celas tomadas pela lama e capim. Um aqueduto, erguido em 1889, completa o conjunto do Lazareto. A edificação se assemelha a um aqueduto romano, com arcos em pedra, e encontra-se praticamente escondida pelos arbustos da Mata Atlântica. A Colônia Penal Cândido Mendes, complexo carcerário que já abrigou presos políticos famosos como os escritores Graciliano Ramos e Orígenes Lessa, é outro prédio em ruína que ajuda a contar a história do lugar. Parcialmente implodido em 1994, o conjunto não passa, hoje, de um amontoado de concreto, agredindo a paisagem da bela Praia de Dois Rios. O local é aberto à visitação pública. E, uma vez diante da ruína, o melhor negócio é percorrê-la ao lado do senhor Júlio Almeida, de 68 anos, único detento que resolveu permanecer em Dois Rios após a desativação da penitenciária. "Foram tantos anos vivendo aqui, que jamais me adaptaria a morar em outro lugar", reflete. Ora saudoso, ora distante do propósito de sua visita às ruínas, seu Júlio conta para quem quiser ouvir os horrores vividos dentro da penitenciária. "Era uma loucura ficar no meio do fogo cruzado entre os comandos Vermelho e Jacaré. Ter sobrevivido a tudo aquilo foi um milagre", enfatiza. O detento, que está em liberdade condicional, diz que foi contra a destruição do prédio, "pois poderiam ter aproveitado as instalações para outras coisas". "Foi doloroso demais ver tudo aquilo desabando", recorda, entre um corte e outro de plantas medicinais que brotam das rachaduras do que sobrou do piso da Cândido Mendes. (A.G.) |
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