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ENTREVISTA/Paulo Diniz
"Não sei fazer uma música envelhecida"

De olho num novo público que espera conquistar no ano 2000, quando completa 60 anos, em 24 de janeiro, o cantor Paulo Diniz prepara uma roupagem para agradar a meninada que não o conhece e aos que já conhecem os seus sucessos. Ex-crooner e baterista de orquestra, começou a trabalhar como engraxate e atingiu o reconhecimento de intelectuais ao musicar poemas como José (Drummond). Versos Íntimos (Augusto dos Anjos), Vou-me embora pra Pasárgada (Bandeira) e Canção do Exílio (Gonçalves Dias).

JORNAL DO COM- MERCIO - Seu primeiro sucesso, de 67, foi O Chorão. Como você chegou a esta música, que não é sua?

PAULO DINIZ - Vou contar a verdade sobre O Chorão. A música é de minha autoria. Tinha um amigo meu que vivia fazendo versões, só que eu não me achava capaz de cantar aquilo. Quero uma música de brincadeira. Então me juntei com um amigo, Luis Keller e falei: `Vamos contar uma estorinha de uma cara'. Fiz a música. Resolvi colocar como compositores Luiz Keller e Edson Nelly.

JC - Depois deste sucesso o que lhe aconteceu de bom?

PD - Fui demitido da Rádio Globo. Eles não admitiam que um locutor fizesse carreira como cantor, e eu passei a viajar e tal. Então fui ser hippie. Não precisava muita roupa, sapato, cortar cabelo.

JC - Foí aí que você foi morar no Solar da Fossa? (Nota: mítico casarão na zona sul carioca - ficava no local onde foi construído o Shopping Rio Sul - que congregava uma miríade de artistas: Gal Costa, Rogério Duarte, Caetano Veloso, Arnaldo Jabor, Paulinho da Viola, Odete Lara e Paulo Leminski.)

PD - Com o dinheiro de O Chorão eu comi alguns meses. O Solar da Fossa fazia parte do cardápio. Era um casa enorme, secular, onde rolava de tudo, se conheciam muitas pessoas interessantes. Quando foram nos tirar dali, fizemos um movimento, deu polícia e tal. Aquilo deveria ter sido tombado.

JC - Lembra aí um caso curioso acontecido no Solar da Fossa.

PD - Uma vez Paulo Leminski chegou pra mim e falou: "Ponha um arco-íris na sua moringa. Faz uma música com esta frase". No dia seguinte mostrei a música a ele prontinha. Leminski era uma pessoa com quem eu me dava muito bem, pegava de tudo. Arco-íris na sua moringa pode ser traduzido por fazer a cabeça.

JC - Voltando para antes da música. Tua formação é toda de rádio.

PD - Aos 14 anos eu já era locutor da Sociedade de Alto-falante de Pesqueira - SAP. Aos 15, vim pro Recife e trabalhei na Rádio Jornal do Commercio. Eu era o cara que dizia a hora certa. Cinco da manhã tava eu lá, no maior sono, dizendo as horas. De lá fui pra Fortaleza, onde passei quatro anos, e, em 64, fui pro Rio. Fui de cara na Rádio Tupi, me apresentei e no outro tava empregado. Fui locutor, ator de rádio-novela. Fiz Aqueles Olhos Verdes, O Morro dos Ventos Uivantes.

JC - E como entrou a música na tua história?

PD - No começo no Rio, me senti muito solitário e comprei um violão. Escutava muita música. Depois de O Chorão, veio a decadência. Eu sabia que aquilo não era coisa pra durar, aí deixei rolar. Fui levando mais a sério. Procurei uma batida, uma sonoridade que tivesse a ver comigo. Porque nunca tive experiências como cantor de bandas, mas ouvia muito música.

JC - Seu grande sucesso mesmo foi I want to go back to Bahia. Uma homenagem a Caetano, como pintou esta música?

PD - Eu lia o Pasquim, e via aquelas cartas que Caetano mandava de Londres. Então pensei, ele lá, com aquele cabelão, aquela cabeça grande, o corpo magro não deve estar causando nada na Inglaterra. Achei que ele deveria estar triste, com vontade de voltar para Bahia. Li que ele estava estudando inglês, então imaginei que a primeira frase que ele poderia ter aprendido seria "I dont't want to stay here..."

JC - Nos seus discos não têm ficha técnica, então não se sabe quem participava deles. Quem está, por exemplo, no seu LP de 70? Quem faz aquele coro, meio soul music?

PD - Eu juntei Golden Boys e mais os irmãos deles, do Trio Esperança. Formei o Goldenrança. Foram eles que fizeram o coro em Quero voltar pra Bahia. Depois surgiu uma ciumeira entre eles, e convidei o Trio Ternura para gravar comigo. Na verdade, chamei todos os meus amigos marginais pra fazer os vocais em Piripiri. A gente conseguia os melhores músicos da época. Mamão (bateria), Don Salvador (piano), Hélio Delmiro (guitarra). César Camargo Mariano toca em Pingos de Amor e Meu Amor Chorou..

JC - Você esteve no augue no período mais brabo da ditadura, e a censura?

PD - No meu caso não rolou muito, até que um dia tomaram uma atitude meio drástica. Me chamaram pro Comando do Leste, do Exército. Queriam explicação sobre duas músicas que estavam no meu primeiro LP. Uma se chamava Malandro é São Benedito, que dizia? "Malandro é São Benedito/ Que é crioulo, mas é santo" e a outra era Palmares. Eu falava sobre Zumbi. Fui com um advogado da Odeon, um jornalista da revista O Cruzeiro. Então censuraram estas duas músicas, e a gravadora teve que fabricar uma nova edição sem elas.

JC - Você musicou poemas de vários poetas famosos, mas o que ficou mais conhecido foi José, de Carlos Drummond, você chegou a falar com ele para colocar a melodia? Ela depois foi censurada também?

PD - Houve uma censura velada, mas nunca foi oficialmente proibida. Nunca conversei com Drummond sobre ela, falei apenas com a filha dele, que era sua secretária, quando enviei o disco. O que me envaideceu muito foi um comentário que ele fez no jornal. Drummond escreveu que depois que ouviu José com a melodia não conseguia mais ler o poema sem cantar a música.

JC - Você raramente gravava músicas de terceiros. Uma das poucas foi Asa Branca, por que idéia de cantar esta?

PD - Um dia eu tava em casa, batem a porta, vou abrir e lá está Luiz Gonzaga. "Rapaz, quero que você cante uma música pra mim". Ele me tratava como um filho, e queria que eu fosse ao Programa de Flávio Cavalcante. Estava havendo um quadro em que um compositor famoso trazia um cantor pra interpretar uma composição sua. Me saí muito bem e acabei gravando, com acompanhamento do conjunto de Chiquino do Acordeon.

JC - Muitas das pessoas que estarão no Abril Pro Rock 2000 conhecem muito pouco sua música. Curioso é que elas estão na mesma faixa etária dos que curtiam você trinta anos atrás. Como você acha que vai encarar uma platéia assim?

PD - Pra mim este convite foi uma coisa muito estimulante. Porque está dentro de um projeto que sempre pensei em levar adiante. Vou mostrar as coisas mais significativas da minha carreira, com uma roupagem para agradar a meninada que não me conhece e aos que já conhecem. Eu sempre tive esta coisa muito jovem em mim. Não sei fazer uma música envelhecida.

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Jornal do Commercio
Recife - 21.11.99
Domingo