LG_jc.gif (3670 bytes)

MÚSICA
Musas de Tori Amos criam mundo estranho e cativante

por SCHNEIDER CARPEGGIANI

No último número da Spin, há uma reportagem sobre o culto quase religioso existente para Tori Amos nos Estados Unidos. Ao contrário de fãs que colecionam fotos e discos, os seus admiradores se concentram no estranho teor poético das suas letras, como se elas fossem mensagens bíblicas. Na matéria, há um depoimento de uma fã de Tori, que diz: "Foi ela quem me ajudou a descobrir que existe uma voz dentro de mim. Mesmo quando ninguém quer escutar o que minha voz tem a falar, eu tenho de escutar".

Se você acha que esse comentário foi feito por uma adolescente angustiada, enganou-se. Ele saiu da boca de uma mulher de quase 50 anos, que disse que a música Silent all these years (Muda por todos estes anos) a ajudou a sair da crise de meia-idade. É possível ainda encontrar centenas de chats de discussão sobre o que ela escreve na Internet. Um dos mais freqüentados, inclusive, se chama `Pensamentos Realmente Profundos'.

Os discípulos de Tori Amos vão ter ainda mais razões para filosofar sobre o que ela tem a dizer com o lançamento do CD To Venus and Back. Na primeira música, Bliss, há a seguinte frase: "Pai, acabei de assassinar o meu macaco". Ao contrário das letras das suas companheiras de profissão, que acham que a única forma de retratar os problemas é através da estética `notícias populares', ela sabe utilizar-se de engenhosas metáforas para retratar a alma humana.

To Venus and Back é um trabalho duplo contendo um CD ao vivo e outro com faixas de estúdio. O primeiro é o registro de sua turnê Plugged, na qual, pela primeira vez, a cantora se apresentou com uma banda completa, deixando de lado o seu solitário e inseparável piano. Em vez de se escorar nas suas músicas mais famosas, Tori preferiu faixas obscuras como Mr. Zebra e Cornflake Girl. O resultado? Basta dizer que a cantora é considerada uma das artistas de melhor performance ao vivo.

ELETRONICA - O segundo era para ser apenas algumas faixas bônus do CD ao vivo. Mas, como ela mesma afirmou para a Spin: "As canções começaram a surgir por todos os lados e a pressão dos meus amigos foi grande para que eu as gravasse. As canções geralmente chegam assim. Elas são enviadas pela `deusa' e não posso contrariar o seu chamado". Se você achou esse comentário new age demais para o seu gosto, pode ter certeza que é assim mesmo que o resto da humanidade vê a figura de Tori Amos, apesar de, musicalmente, ela estar bem longe das Enyas da vida.

Seguindo os rastros do CD anterior, From The Choirgirl Hotel, Tori deixou de lado a sonoridade acústica do seu CD anterior para brincar com a eletronica. Mas essa sua utilização não representa faixas dançantes, mas sim uma atmosfera cheia de barulhos tão estranhos quanto suas palavras. Até mesmo quando as batidas são mais pesadas, o ouvinte se sente mais atraido pelo exotismo do arranjo do que pela vontade de sair dançando (Glory of 80's é o melhor exemplo disso).

A música sobre o assassinato do macaco tem Tori exercitando os seus vocais à Kate Bush e um belíssimo órgão, que faria Tricky dar metade dos seus discos de ouro para conseguir fazer igual. Josephine lembra o som do grupo Cowboys Junkies. A 1000 oceans apresenta o andamento de uma balada falando de amor quase convencional, mas o seu talento como letrista prova que ainda é possível falar desse tema sem cair no lugar comum.

To Venus and Back é a melhor introdução para quem ainda não escutou o chamado enviado pela `deusa': bem mais acessível que os outros, mas tão estranho quanto. Esse CD é uma prova perfeita de que é possível permanecer no mainstream, sem precisar se render ao formato `Ricky Martin-Britney Spears' que é onipresente no cenário pop atual.

-----------------------------------------------------------------------


Jornal do Commercio
Recife - 21.11.99
Domingo