MÚSICA
Musas de Tori Amos
criam mundo estranho e cativantepor SCHNEIDER CARPEGGIANI
No último número da Spin, há uma
reportagem sobre o culto quase religioso existente para
Tori Amos nos Estados Unidos. Ao contrário de fãs que
colecionam fotos e discos, os seus admiradores se
concentram no estranho teor poético das suas letras,
como se elas fossem mensagens bíblicas. Na matéria, há
um depoimento de uma fã de Tori, que diz: "Foi ela
quem me ajudou a descobrir que existe uma voz dentro de
mim. Mesmo quando ninguém quer escutar o que minha voz
tem a falar, eu tenho de escutar".
Se você acha que esse comentário foi
feito por uma adolescente angustiada, enganou-se. Ele
saiu da boca de uma mulher de quase 50 anos, que disse
que a música Silent all these years (Muda por todos
estes anos) a ajudou a sair da crise de meia-idade. É
possível ainda encontrar centenas de chats de discussão
sobre o que ela escreve na Internet. Um dos mais
freqüentados, inclusive, se chama `Pensamentos Realmente
Profundos'.
Os discípulos de Tori Amos vão ter
ainda mais razões para filosofar sobre o que ela tem a
dizer com o lançamento do CD To Venus and Back. Na
primeira música, Bliss, há a seguinte frase: "Pai,
acabei de assassinar o meu macaco". Ao contrário
das letras das suas companheiras de profissão, que acham
que a única forma de retratar os problemas é através
da estética `notícias populares', ela sabe utilizar-se
de engenhosas metáforas para retratar a alma humana.
To Venus and Back é um trabalho duplo
contendo um CD ao vivo e outro com faixas de estúdio. O
primeiro é o registro de sua turnê Plugged, na qual,
pela primeira vez, a cantora se apresentou com uma banda
completa, deixando de lado o seu solitário e
inseparável piano. Em vez de se escorar nas suas
músicas mais famosas, Tori preferiu faixas obscuras como
Mr. Zebra e Cornflake Girl. O resultado? Basta dizer que
a cantora é considerada uma das artistas de melhor
performance ao vivo.
ELETRONICA - O segundo era para
ser apenas algumas faixas bônus do CD ao vivo. Mas, como
ela mesma afirmou para a Spin: "As canções
começaram a surgir por todos os lados e a pressão dos
meus amigos foi grande para que eu as gravasse. As
canções geralmente chegam assim. Elas são enviadas
pela `deusa' e não posso contrariar o seu chamado".
Se você achou esse comentário new age demais para o seu
gosto, pode ter certeza que é assim mesmo que o resto da
humanidade vê a figura de Tori Amos, apesar de,
musicalmente, ela estar bem longe das Enyas da vida.
Seguindo os rastros do CD anterior,
From The Choirgirl Hotel, Tori deixou de lado a
sonoridade acústica do seu CD anterior para brincar com
a eletronica. Mas essa sua utilização não representa
faixas dançantes, mas sim uma atmosfera cheia de
barulhos tão estranhos quanto suas palavras. Até mesmo
quando as batidas são mais pesadas, o ouvinte se sente
mais atraido pelo exotismo do arranjo do que pela vontade
de sair dançando (Glory of 80's é o melhor exemplo
disso).
A música sobre o assassinato do macaco
tem Tori exercitando os seus vocais à Kate Bush e um
belíssimo órgão, que faria Tricky dar metade dos seus
discos de ouro para conseguir fazer igual. Josephine
lembra o som do grupo Cowboys Junkies. A 1000 oceans
apresenta o andamento de uma balada falando de amor quase
convencional, mas o seu talento como letrista prova que
ainda é possível falar desse tema sem cair no lugar
comum.
To Venus and Back é a melhor
introdução para quem ainda não escutou o chamado
enviado pela `deusa': bem mais acessível que os outros,
mas tão estranho quanto. Esse CD é uma prova perfeita
de que é possível permanecer no mainstream, sem
precisar se render ao formato `Ricky Martin-Britney
Spears' que é onipresente no cenário pop atual.
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