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OBSESSÃO
As Iniciais joga com morte e paixão

Em um tempo em que o mercado literário exige cada vez mais precisão, o escritor Bernardo Carvalho prefere fugir cada vez mais de qualquer tipo de nitidez. No seu novo livro, As Iniciais (R$ 19,00), todas as personagens são apenas letras maiúsculas, lembrando a maneira como certos autores dos séculos XVIII e XIX se referiam a algumas pessoas sem maior importância no enredo. Só que aqui, esse `algumas' é transformado em `todas'. Além disso, não existe precisão geográfica a respeito de onde se passa a narrativa. O tempo é marcado por bolhas de acontecimentos, sem qualquer precisão de dia, ano ou década. Na sua superfície, tudo parece opaco.

Sobre a sua escolha estilística, o próprio autor faz questão de afirmar: "Não acho que o livro seja difícil. O que talvez dificulte a compreensão de muitos leitores é que todas as suas personagens sejam apenas iniciais. Mas é uma história simples, que fala, basicamente, sobre o luto de um relacionamento. É um livro sobre a relação entre morte e paixão".

Exatamente por tratar de temas tão básicos e essenciais como esses, que o livro de Carvalho confunda tanto. Nós todos ficamos um pouco tolos e abobalhados ao nos depararmos com essas essências - a morte e a paixão. Afinal, a morte fulmina e a paixão desorganiza.

Se esquecermos toda a questão das iniciais, realmente, esse é um livro simples. 12 pessoas se reúnem para jantar no antigo mosteiro abandonado de uma ilha, na qual mora um homem que vive anotando sua vida, sem muitos acontecimentos importantes, em um diário. Um dos convidados recebe por engano uma caixa contendo quatro iniciais e acaba se envolvendo em um jogo obsessivo para tentar decifrá-las.

Passadas as primeiras 30 páginas, a confusão em que o protagonista acaba entrando, para descobrir a verdade sobre a caixa de inicias, leva a obra a cair em um certo tom humorístico. "Teve gente que achou o livro triste, outros acharam que tudo era uma grande comédia. Eu decidi colocar um pouco de humor na narrativa, porque, às vezes, a vida chega a um determinado ponto de confusão que a única coisa que nos resta fazer é rir", comentou o autor.

A opção de Carvalho por querer brincar com o desespero das suas personagens é extremamente bem-vinda, pois propicia um momento de respiração para o leitor na hora em que a trama fica mais angustiante. De acordo com o autor, esse recurso é inspirado nas leituras de Thomas Bernhard, uma das principais referências da sua escrita.

Um dos pontos que Carvalho mais quis trabalhar em As Iniciais é o provável peso da identidade de um nome. Um tema que o angustiou desde a sua infância. "Quando eu era pequeno quis sempre saber o que significava eu me chamar Bernardo Carvalho. Será que se o meu nome fosse diferente eu teria a mesma personalidade que tenho? Será que um nome consegue mudar os traços mais básicos de alguém? Essa é uma questão, aparentemente, banal, que pouca gente pensa a respeito. O ser humano é muito frágil, é só mexer em um ponto do nosso cérebro para que as nossas reações se tornem diferentes. A fragilidade humana é sempre algo complicado para se pensar a respeito".

Talvez por nenhuma das personagens se chamar João, Maria ou Pedro, que a temática homoerótica de As Iniciais foi pouco comentada pela imprensa. Mais uma vez, o elementar causa confusão. "Acho que muitos críticos não quiseram tratar do assunto para não fazer o livro cair no rótulo fácil de gay. A temática gay é algo bastante presente nos meus livros, mas não a retrato de uma maneira politicamente correta, pelo contrário. Sou totalmente a favor dos movimentos de militância homossexual, mas uso esse tipo de relacionamento para retratar a bagunça emocional em que estamos vivendo. Não facilito a questão gay, prefiro complicá-la ainda mais".

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Jornal do Commercio
Recife - 21.11.99
Domingo