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ACIDENTE II A experiência de quem escapou ileso Toda tragédia, como a do Edifício Éricka, que desabou matando quatro pessoas há dez dias, em Olinda, tem histórias tristes daqueles que perderam suas vidas, entes queridos ou o patrimônio adquirido após anos de trabalho. No entanto, cada caso também reserva experiências inexplicáveis, como pessoas que escaparam ilesas por um capricho do destino. No desabamento do Éricka, uma família inteira se salvou porque foi protegida do soterramento por um guarda-roupa. O engenheiro químico Tadeu Bernardo de Araújo, que perdeu a mulher e dois filhos, só não morreu por estar de plantão na noite do acidente. Além de ter de conviver com a dor da perda, os sobreviventes das tragédias também questionam a razão de suas vidas terem sido poupadas. Para a aposentada Laura Ribas de Albuquerque, única funcionária do Banco Mercantil que sobreviveu à tragédia do Edifício Gisele, em Jaboatão, que desabou na tarde de 1º de julho de 1977, o fato de estar viva se deve apenas à vontade divina. Laura havia acabado de almoçar e tinha ido ao banheiro quando o prédio ruiu. Ela ficou soterrada até o pescoço e foi resgatada um hora e meia depois, apenas com escoriações. Quatro colegas e 14 outras pessoas não tiveram a mesma sorte e morreram no desabamento. "Estar aqui contando essa história é uma obra de Deus". Até o final do ano passado, a dona de casa Aidê Luiza da Silva, 50 anos, não andava de ônibus. Morando na Vila da Cohab, no Cabo, ela tinha crises de choro ao lembrar do acidente que marcou sua família há 12 anos. Aidê, o marido Edinaldo, sargento reformado da Polícia Militar, e os dois filhos do casal, Eliane e Eide, estavam entre os 67 passageiros do ônibus da São Judas Tadeu que bateu de frente com um caminhão carregado de chapas de alumínio. A colisão deixou 32 mortos e dezenas de feridos. A dona de casa passou três meses imobilizada e precisou recompor os ossos da perna esquerda e do braço direito com implantes de platina para recuperar os movimentos. Eliane quebrou o maxilar e já fez oito plásticas no lado direito do rosto. O filho mais velho, Eide, morreu no acidente e o pai foi o único a sair ileso na colisão. "Passei anos só dormindo sob o efeito de sedativos e chorando pelos cantos. Hoje estou mais conformada, mas tudo isso são lembranças que ainda doem muito", afirmou dona Aidê. Sentada numa cadeira da sala, Amara Simone Nascimento assistiu ao marido pedir ajuda após ser atingido pelo fogo da explosão do avião Bandeirante, da Nordeste Linhas Aéreas, que caiu na Vila do Ipsep em 11 de novembro de 1991. Quinze pessoas a bordo da aeronave e uma em terra morreram na hora. O aposentado Adauto Nascimento, marido de Amara, morreu uma semana depois no hospital. "Ainda hoje sinto uma angústia quando ouço o barulho de um avião passando por aqui", lembra, emocionada. Amara Simone não sabe como escapou das chamas, mesmo tendo andado por cima do combustível espalhado em sua sala com uma vela na mão. "As luzes se apagaram e só notei que tinha gasolina no chão quando acendi uma vela. Escapei duas vezes do acidente". A aposentada Geralda Silva do Nascimento, 61, perdeu seis parentes no deslizamento de uma barreira no Córrego do Boleiro, em abril de 1996. Ela não dormiu em casa na noite da tragédia porque foi visitar uma irmã. Para suportar a saudade da filha Maria Betânia e do neto Saulo, com os quais mantinha mais intimidade, Geralda recorreu à religião. "Aceitei Jesus para aquietar meu coração. Só assim encontrei paz para continuar vivendo". ANÁLISE Para o médico psicanalista Antônio Carlos Escobar, o processo de assimilação da morte traumática de uma pessoa próxima pode ser prejudicado por um sentimento de culpa por ter sobrevivido. Em alguns casos, o luto pode se tornar patológico e evoluir para uma depressão intensa e prolongada. Em outros episódios, algumas pessoas reagem negando o fato traumático através da ocupação do tempo em tarefas práticas. "Toda perda do ser humano precisa necessariamente passar por uma fase de luta mental. Isto é, a elaboração psíquica da morte. Tudo isso faz parte de um processo lento e doloroso no qual predominam a não-aceitação do fato, a revolta e a tristeza. Após essa fase, a pessoa aceita a realidade e recomeça a vida", avalia Antônio Carlos Escobar. |
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