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CURTO E GROSSO
José Teles

É triste a sina do caranguejo

Sou meio incréu. Não acredito muito em outra vida. Aliás torço para que não haja. Uma vez só, pra mim, é mais do que o suficiente. No entanto, se este troço de reencarnação realmente for na vera, que me façam voltar como qualquer bicho, menos gente ou caranguejo.

Pelo pouco que li sobre o pós-fechamento de paletó, periga de o indivíduo retornar na forma de qualquer coisa que se mexa ou respire. Isto até me faz lembrar uma piada idiota, destas que se publicam em seções tipo Rir é o melhor remédio. Ei-la: A mulher compareceu a um centro a fim de levar um lero com o falecido cônjuge, cujas botas haviam sido recentemente batidas. O médium foi da maior competência. Mandou ver um download espiritual, e logo o marido baixava no pedaço.

A madame não coube em si de contente: "Astrogildo, é verdade mesmo que existe outra vida?" E Astrô (como ela o chamava, antes do fatal batimento de botas) respondeu: "Claro, né Margô? Ou tu acha que tás falando com um gravador? Aliás, tô vendo ali uma vaquinha que é uma coisa!" E Margô: "Vai, Astrogildo, me conta mais. É jóia aí? A comida é legal?" Astrô tornou a falar, mostrando uma certa impaciência: "E então! Agora mesmo tô comendo, tá uma delícia! Mas aquela vaquinha, minha nossa!"

"Astrogildo, tu mudou de dimensão mas continua o mesmo. A gente tá num assunto e tu vem com outro. Deixa esta gota desta vaca pra lá. Me diz, como é o céu? E Astrô, visivelmente aborrecido: "Qualé, Margô, quem falou aqui em céu? Eu reencarnei. Sou um touro, tô num pasto, e se eu não me ajeitar com aquela vaquinha hoje, eu choche!".

Então que me façam um guzerá, que nem Astrô, jamais gente ou caranguejo. Por que? Bom, basta, minha senhora! Do ser humano venho comentando os maus predicados desde tempos imemoriais, e não tô a fim de me repetir hoje.

Negócio seguinte, tem um monte de gente por aí que é mais fácil tomar uma sopa de estricnina do que traçar um bife bem-passado. Alegam que o gado vacum sofre as mais atrozes crueldades para que nos deleitemos com suas chuletas, maminhas, picanhas e partes afins. Tenho cá minhas ressalvas. Sofrer, o boi e a vaca sofrem, ma non troppo.

É como digo, neste negócio de se proteger o verde, todos olham pro baobá e não dão a mínima pro arbusto. Esta proteção toda só vai pros animais de maior porte, cadê que ninguém mexe um dedo que seja a favor do caranguejo? Nem mesmo o macaco da Índia é submetido a suplícios tamanhos. Este macaco, salvo engano, é uma iguaria indiana. Na hora de ser degustado, o símio é posto ao lado da mesa, devidamente imobilizado, daí vem o maitre, tasca-lhe um afiado facão no cocoruto e arranca-lhe o tampo do cérebro. Os goumerts avançam sobre os miolos do desditado macaco, e comem-no com um molho especialíssimo. É terrível, admito, porém o macaco não sofre tanto assim, visto que sem cérebro ele não pode sentir dores.

Com o caranguejo não tem boquinha não. O freguês aproxima-se do caritó, escolhe os mais robustos. Enquanto seu algoz aboleta-se numa mesa e ingere uma braminha da antarctica, os infelizes dos crustáceos estão sendo cozinhados em fogo lento. Morre feito um santo, na maior resignação, não emite um único berro ou imprecação. É ou não é morte mais cruel do que a do boi?

Tivesse eu capacidade de arregimentar acólitos para uma causa nobre, ou fosse menos preguiçoso, fundaria uma ONG para lutar contra o holocausto dos caranguejos. Uma boa ação que, quem sabe, me garantiria, na próxima vinda (que tomara não aconteça), uma encarnação num bicho decente ou menos sofredor.

e-mail: teles@jc.com.br


Jornal do Commercio
Recife - 21.11.99
Domingo